quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Capítulo 1 - O Mercenário com a Espada Negra




Fazia três meses que Elric vagava pelos Reinos Jovens em busca de alguma aventura. Sua última viagem o havia levado ao mundo além do Portal Rubro, conhecido pelos humanos como o Inferno, onde ele enfrentou uma das maiores lendas de seu povo: o conde Saxif D'Aan, um poderoso governante, mestre na arte da feitiçaria e que torturara até a morte a única mulher que o amou. 


Aquela tinha sido a primeira grande experiência do príncipe de Melniboné longe de sua terra natal. Claro, ele já se aventurara por outros países e planos de existência muito antes, como quando teve de resgatar sua noiva, Cymoril, de seu cativeiro. Seu primo Yyrkoon havia raptado a própria irmã numa tentativa de tomar o trono que pertencia a Elric por direito após abandoná-lo à própria morte durante uma batalha contra uma frota invasora de um dos Reinos Jovens.


Não que ele culpasse o primo pelos seus atos. Na verdade, ele era até agradecido pelos acontecimentos terem se desenvolvido do jeito que ocorreram. Pois fora graças à traição de Yyrkoon que Elric mais tarde veio a se apossar da lendária Stormbringer, a espada devoradora de almas, a espada amaldiçoada de seus ancestrais. Foi necessário que Elric viajasse ao mais sombrio dos planos, onde as forças do Caos e da Ordem travaram uma de suas milenares batalhas, até chegar à sinistra cidade de Ameeran, uma cidade desolada em um plano desolado, habitado somente por demônios, almas perdidas e presos condenados a uma eternidade de sofrimento. O príncipe aceitou passar pelo Portal das Trevas para encontrar seu primo e acabou encontrando uma das duas espadas lendárias. Yyrkoon havia tomado para si uma delas, Mournblade, e os dois travaram um embate para decidir quem retornaria vivo e seria coroado imperador de Melniboné. 


Elric, é claro, desconfiava que tudo não passasse de manipulação dos deuses. Não raro os governantes melniboneanos eram induzidos por Arioch e sua legião de demônios a empreender arriscadas missões para ampliar seu poderio. Arioch era o patrono de Melniboné e o mais poderoso Lorde dos Caos. Sua invocação era considerada uma das mais difíceis pelo povo da Ilha do Dragão, pois muitas vezes Arioch não respondia aos seus adoradores. O lorde tinha seus favoritos, e só a eles eram concedidas as maiores benesses. 


E um deles era Elric de Melniboné.


Desde o começo, o príncipe desconfiara que Arioch manipulou toda a briga com seu primo para que o príncipe tomasse a espada.. O que Elric não poderia prever era como a espada responderia a todos os seus anseios mais profundos. Stormbringer não era uma espada comum. Primeiro, porque ela possuía vontade própria. Segundo, porque a cada morte que trazia, ela absorvia a vida de sua vítima e a passava a quem a empunhasse. E terceiro, porque ela era considerada invencível.


Elric, contudo, não era bobo. Ele sentia a vontade da espada. Ele sentia sua sede de sangue. Aquela arma era ardilosa e manipuladora. Se ele não a controlasse, seria por ela controlado. O príncipe enxergou todas essas coisas e, durante o embate, se recusou por diversas vezes a executar seu primo. Em cada chance que Elric teve de ferir mortalmente seu rival, a espada se agitou em sua mão em protesto, clamando por sua vida. Mas Elric se recusou a realizar seu desejo. Ele era o mestre da espada, e não o contrário. 


Mas todos esses eventos aconteceram anos atrás e agora Elric tinha outras preocupações imediatas. Com Stormbringer ao seu lado, o príncipe nunca mais precisaria se preocupar com sua saúde fraca. Toda vez que matasse, a espada restauraria sua força. Ela era o passaporte para sua liberdade, para uma vida longe das obrigações de ser um imperador de Melniboné. Por isso, Elric viajava, atravessando mundos e planos e buscando conhecer os Reinos Jovens, no intuito de acumular conhecimento sobre o novo mundo. 


Os moradores que passavam por ele lhe encaravam por alguns segundos a mais do que o normal, assustados com sua aparência fora do comum. Elric era o que podia se chamar de demônio humano. Seus olhos vermelhos contrastavam com sua pele albina e seus cabelos brancos. E suas roupas de couro negro denunciavam sua verdadeira origem. Ele não os culpava por seu medo. Por cinco séculos, os humanos foram submetidos às piores tiranias da mão dos imperadores da Ilha do Dragão. 


Terríveis torturas eram infligidas naqueles que eram capturados e levados a Melniboné. Por toda parte, se falava dos cruéis imperadores, que esfolavam suas vítimas com as próprias mãos em um espetáculo diabólico para a diversão da corte e bebiam seu sangue em seus crânios. Um dos passatempos da aristocracia era manter várias vítimas torturadas vivas por semanas a fio e tocar suas cordas vocais como se fossem instrumentos musicais, produzindo uma sinfonia macabra para quem quer que a ouvisse, exceto para os ouvidos de um melniboneano.


Em todas essas lendas, havia algo de mito e de verdade. Elric sabia que Yyrkoon tinha, sim, seu chamado Quarto dos Prazeres. Mas os prazeres nada envolviam atividades agradáveis para quem entrasse ali de fato. Era comum a vítima ser dopada e carregada para o recinto e seus membros serem retirados dali em separado. Um dia era um braço. No outro, as duas pernas. Às vezes retiravam apenas a língua e os olhos. Os membros decepados variavam conforme o gosto do melniboneano. Até não sobrar mais nada a não ser a cabeça ou qualquer outra parte com que Yyrkoon se satisfizesse em seus jogos sádicos.


Elric terminou de beber seu vinho e pagou ao taberneiro com algumas poucas moedas locais. Ele matinha uma bolsa recheada com as preciosas moedas melniboneanas, cunhadas a ouro e contendo o brasão de sua terra natal; mas ninguém naquela região aceitaria trocá-las. O albino mal deixou a taverna quando viu o que parecia ser uma parada militar cruzar a rua.


Os soldados atravessavam a via principal carregando os estandartes do triunvirato, os três reis que governavam a região de Tellericar, próxima às Cidades Púrpuras. A população dava passagem, assistindo a tudo com ávido interesse. À frente vinha uma pequena orquestra, tocando tambores e rufando trompas. E liderando os soldados vinha a guarda real, trajada em um ostensivo uniforme de um rico tom vermelho e ombreiras douradas. 


O melniboneano se manteve discretamente escondido em seu canto, quase inconfundível entre os cidadãos em uma das margens da calçada. Mas não havia jeito; seu visual destoava da massa, com seu cabelo branco revolvendo ao redor de sua cabeça e seus olhos caídos cintilando em um profundo vermelho sangue contra a luz do sol.


A guarda real ordenou que os soldados parassem de marchar e se virou para a calçada onde Elric estava. Um deles apontou em sua direção e murmurou para o outro que aquele era o mercenário com a espada negra. 


“Merda. Eles me descobriram.” –pensou o albino, já levando a mão para a empunhadura. Stormbringer pressentiu o combate e ronronou na bainha. Ela se banharia no sangue de novas vítimas.


A última vez que Elric tentou oferecer seus serviços a um governante humano, a situação não teve um resultado feliz. O albino foi encarcerado sob acusações de ser um espião de Melniboné e teria sido torturado se não fossem por seus conhecimentos de feitiçaria. Com a ajuda dos elementais, ele incinerou seus capturadores e fugiu da primeira cidade humana que tentou visitar, jurando que aquela seria a última vez que ele poria seus pés nos Reinos Jovens.


Mas o destino lhe havia obrigado a fazer uma parada em Tellericar. Viajando por uma semana pelo deserto, sem água, nem comida e apenas com a energia da espada para lhe sustentar, Elric chegara à cidade parecendo um cadáver ambulante, de tão magro e famigerado que estava. Somando-se à sua pele anormalmente branca, ele só podia imaginar o efeito aterrorizador que causou nos guardas humanos ao finalmente chegar à Tellericar, arrastando-se em direção aos seus portões enquanto implorava por água.


Os guardas abriram passagem pelas massas e chamaram pelo seu nome.


—Elric de Melniboné, Sua Majestade, Tzar Altenkoenig III, O Altíssimo o convoca à sua presença.


—Como sabem que sou de Melniboné? –ele perguntou, estranhando como, em uma metrópole com mais de quinhentos mil habitantes e duzentos mil estrangeiros, visitantes de todas as partes do mundo, o rei sequer sabia de sua existência.


O guarda conteve um sorriso sardônico, evitando encarar o albino de cima a baixo, com seus trajes tipicamente pertencentes a um habitante da Ilha do Dragão.


—Sua Majestade pode respondê-lo em pessoa. Acompanhe-nos. –aquela era uma ordem, e não um pedido.






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