quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Capítulo 2: O Tzar e o Príncipe





O melniboneano marchou pelo corredor do palácio real, escoltado por não menos que seis membros da guarda. Ele caminhava apreensivo, já antevendo o que o Tzar provavelmente pediria dele.

Em uma de suas aventuras envolvendo reis e governantes humanos, Elric fora coagido pelo Duque Avan a empreender uma arriscada viagem pelo Mar Fervilhante atrás de um antigo segredo das lendas de Melniboné: R'lin K'ren A'a, a terra de seus ancestrais. O albino fez de tudo para demonstrar seu desinteresse na viagem, mas o aristocrata simplesmente não lhe deu nenhuma escolha. Seu navio navegava direto para a costa ocidental e o príncipe não pode fazer nada a não ser se resignar com a situação em que o destino havia forçosamente lhe colocado.

—Majestade, encontramos o melniboneano. —anunciou um dos guardas.

O soberano estava de costas para os portões de seu escritório, reclinado em cima da mesa. Ele parecia ocupado com um documento. A julgar pelas suas dimensões, Elric adivinhou que se tratava de um mapa.

—Podem se retirar. —fez o homem, gesticulando para que os guardas saíssem.

Os portões se fecharam detrás de si e Elric não disse, nem fez nada enquanto o Tzar não se dirigia a ele. Após alguns estranhos segundos em que o albino ficou em pé encarando o majestoso recinto ao redor e o Tzar continuava de costas para ele, analisando o mapa com grande interesse, o homem finalmente se dirigiu ao seu convidado.

—É raro recebermos visitantes da Ilha do Dragão. —sua voz ecoou pelo salão amplo— Os melniboneanos são famosos por serem reclusos. Raramente abandonam sua terra natal.

O Tzar era um homem de estatura mediana, longos cabelos negros presos em uma trança, adornada com fios de prata em seu comprimento. Seus trajes eram compridos e amarrados com um cinto ricamente enfeitado com belas pedrarias. De sua cintura, pendia uma bainha branca contendo uma espada de empunhadura fina, longa e prateada. Seus olhos profundos eram de um tom verde escuro e rasgados. O homem tinha uma boca reta, e seus lábios se contorciam em um eterno sorriso no canto. O olhar de Elric cintilou em resposta. Aquele homem obviamente sabia de sua identidade e reputação. Mas fingia ser ignorante a respeito de ambos.

—Meu povo zela muito por suas tradições. Não cabe a mim questionar a sabedoria de meus ancestrais.

—Mas você já questionou! Não é por isso que deixou sua terra natal, Sua Alteza? —o homem retrucou com um largo sorriso.

Elric não sabia se o Tzar estava interessado nele ou apenas se divertindo às suas custas. De qualquer forma, ele tinha se tornado impaciente com os governantes humanos. A maioria deles procurava o albino apenas para lhe arrancar segredos sobre a poderosa feitiçaria de seu povo. Nenhum tinha o interesse genuíno de lhe ajudar a restaurar seu Império à sua antiga glória.

—Você me convocou, Tzar. Diga-me por que razão estou aqui.

—Isso é o que pergunto a você, meu caro. —ele respondeu com delicadeza— Apenas algumas semanas atrás, meus guardas vêm até mim com uma notícia estranha: a de que uma família viu um cadáver ambulante vindo do deserto e bateu às nossas portas, implorando por água. Não só isso, como ele trajava roupas típicas de um melniboneano e portava uma espada de fio negro, suja de sangue. Como acha que reagi à notícia?

O Tzar lhe encarava de volta, arqueando uma sobrancelha e fingindo que inspecionava suas longas unhas. Elric soltou um longo suspiro.

—O que você contou ao povo?

—Ah, eu não disse nada demais. Nada que incitasse a ira das pessoas.

O Tzar se referia à intensa hostilidade humana contra os melniboneanos.

—Mas eles ficaram curiosos quanto à sua vinda. Então, eu tive de dar uma desculpa conveniente.

Elric cruzou os braços, vendo que o Tzar sorria em vez de responder logo de uma vez. Ele gostava cada vez menos do homem.

—E que desculpa seria essa? —ele perguntou cheio de cinismo.

Agora eles haviam entrado no assunto que interessava.

—Simples. Eu disse que você era o herói que ajudou o Duque Avan em sua perigosa expedição pelo Mar Fervilhante. Também foi o bravo guerreiro que liderou anos antes a rebelião contra o tirano Yyrkoon quando da invasão de um dos Reinos Jovens. —o Tzar gesticulava fazendo floreios com a mão enquanto falava—Contei de sua heroica entrada em uma das principais cidades, onde a população era refém de seu cruel primo, e de como o bravo e corajoso Elric resgatou sua noiva e derrotou o tirano sádico. Então, obviamente eu disse que você tinha vindo a Tellericar cumprir uma importante missão. Uma missão que resolveria o meu problema e o seu. –ele disse, catando uma maçã de uma cesta.

—E que problema seria esse?

—Tirar seu primo tirano do trono sem ser assassinado antes. —ele respondeu dando uma mordida na fruta.

Elric encarou o homem de soslaio e começou a caminhar pelo salão, inquieto. O Tzar estava bem informado do dilema que ele enfrentava com Yyrkoon. O albino havia colocado seu primo como regente até seu retorno a Melniboné. Agora, o safado havia se acostumado ao trono e iniciaria uma guerra contra Elric, se necessário, para se manter governando.

O que o Tzar oferecia era um favor em troca de outro: a ajuda militar de Tellericar pelo que quer que ele estava prestes a pedir. Tendo mal sobrevivido à sua última incursão em uma cidade dominada por demônios, onde perdeu todos os seus companheiros, ele se via pouco inclinado a enfrentar qualquer batalha daqui para frente sem ajuda apropriada.

—É mesmo estranho que um poderoso feiticeiro tenha chegado a Tellericar quando eu mais precisava. —o Tzar continuou falando—Se eu não fosse um cético, diria que os deuses favoreceram esse encontro. Acho que sua vinda não poderia ser mais proveitosa. Diria até que nosso encontro foi forjado pelo destino.

Os pelos de Elric se arrepiaram em seu braço e um tremor percorreu seu corpo de cima a baixo. Sempre que ele ouvia aquela palavra – destino -, ele tinha um péssimo pressentimento. O albino já a ouvira mais vezes do que gostaria, e em todas elas, as coisas não haviam terminado bem.

A espada sentiu sua vontade de se livrar do homem naquele mesmo instante e ronronou na bainha.

—E essa é a lendária Stormbringer. —fez o Tzar— posso vê-la?

Elric manteve os braços cruzados detrás de si, devolvendo-lhe um olhar glacial.

—Nunca deixo outro homem tocá-la.

—Hm. Vc tem ciúmes da sua espada? —ele sugeriu com um olhar maroto.

—Digamos que sim. —o albino respondeu, mal disfarçando o tom de ameaça.

O Tzar depositou o restante da maçã em um cesto vazio, limpou as mãos e apanhou o mapa que estava em sua mesa.

—A razão pela qual lhe chamei aqui é muito séria. —seu tom se tornou taciturno— Há quinze anos, Tellericar vem sofrendo saques e invasões de um grupo de rebeldes instalados no deserto. Apesar de enviar nossas melhores tropas para escoltar a região, nunca conseguimos encontrar a base desse grupo. Meus homens já tentaram de tudo, mas é impossível descobrir onde os canalhas se escondem. Eles são como baratas. Matamos alguns deles e mais voltam não se sabe de que inferno para vir nos atormentar.

O Tzar havia lhe entregado o mapa para Elric inspecionar. Na parte do deserto, havia vários círculos e rotas tracejadas, indicando os locais investigados e as patrulhas feitas. O albino moveu seus olhos vermelhos pelo pergaminho, se dando conta de que Tellericar era circundada pelo deserto de todas as direções, exceto pelo sul. Ali, uma cordilheira se estendia e bloqueava o acesso ao mar. Se não fosse pelas montanhas, o deserto não existiria.

—Quem comanda esses rebeldes? Um rival insatisfeito?

O Tzar lançou por um breve momento um olhar desconfiado ao albino, como se ele soubesse de alguma coisa, mas julgou que isso era impossível.

—Quem vai saber? Você conhece os bandidos que se escondem no deserto. Todo mês é a mesma coisa: enviamos minerais e joias para as principais capitais do reino e esses bastardos atacam nossos comboios.

—Ainda não vejo onde me encaixo nisso tudo.

O Tzar pousou as mãos em cima da mesa, de costas para o príncipe.

—O líder desses rebeldes não é uma pessoa comum.

“Ah.” —fez Elric em pensamento. Agora ele entendia onde o homem queria chegar.

O Tzar lhe contou do que aconteceu na única vez em que aquele bando tinha conseguido invadir o palácio. Era madrugada e alguém tinha contaminado a água da fonte nas montanhas —onde Tellericar abastecia metade de seus reservatórios— colocando um potente sonífero no lago principal. A substância não tinha cheiro, nem cor, e por isso os tellericanos só se deram conta de que foram contaminados no fim do expediente. A cidade literalmente parou por várias horas. Ninguém se aguentava acordado. Foi quando os rebeldes invadiram o palácio e fizeram um atentado à vida do Tzar.

—Eu me escondi quando soube que havia algo de errado na cidade. Mas a líder deles me encontrou e, com um grupo de cinco bandidos, tentou acabar com a minha vida. Eles só não conseguiram porque minha guarda me defendeu a tempo.

—E o que essa líder fez, afinal? —Elric perguntou, já impaciente.

—Ela matou meus soldados, um a um. Sem sequer usar nenhuma arma. Apenas...argh, não sei. Ela lançou raios de suas mãos e seus olhos brilhavam com uma luz infernal. Eu nem sei o que ela fez comigo. Por sorte, o resto da guarda chegou e conseguiram expulsá-la. Eu vi eles perfurarem seu corpo com espadas e ela continuava viva. Vi ela correr sozinha de volta para o deserto, sendo alvejada por flechas em brasas, e a miserável não morria. Só continuou correndo de volta para o buraco onde ela se esconde.

“Por isso ele estava interessado em Stormbringer.” —os olhos vermelhos cintilaram— “Ele quer que eu use a espada devoradora de almas e acabe com ela. A espada que pode sugar até a alma de um deus.”

Em tudo que o Tzar lhe relatara, havia um detalhe que não batia...

“Uma feiticeira imortal? Em um dos Reinos Jovens?” –o albino pensou, desconfiado. Isso não fazia o menor sentido. Ela não poderia ser humana. Humanos não conheciam feitiçaria. Essa era a especialidade de Melniboné, aprendida com os seres de outros planos.

“A não ser que ela seja a precursora de Gagak.” –ele pensou, inquieto. Gagak tinha sido uma feiticeira que, em um tempo futuro, ele derrotou com a ajuda de mais três bravos heróis, chamados apenas de encarnações do Eterno Campeão. Ao chegar nas margens de uma Tanelorn desolada, sabe-se lá por que catástrofes a história ainda lhe traria, Elric e seus recém conhecidos companheiros fundiram suas consciências e dominaram o corpo de Gagak, usando-o para destruir seu irmão, um perigoso feiticeiro, e evitar que ambos sugassem toda a energia do Universo, precipitando seu fim.

“Não pode ser ela...ou será? Aqui, no presente, que é o passado dela, teria eu encontrado sua forma original? Eu poderia destruí-la antes que ela aumentasse seus poderes e ameaçasse o futuro.”–o albino considerou.

—Qual o nome dela? De onde ela veio?

O Tzar respondeu que não fazia ideia.

—Seus homens não interrogaram nenhum desses rebeldes? –ele insistiu.

—E como iriam interrogar? —ele exclamou, e seu tom de voz ecoou pelos corredores adjacentes— Esses desgraçados são suicidas. Aceitam morrer por ela! Eu não sei o que ela fez com eles. Colocou um feitiço de obediência em suas mentes, fez lavagem cerebral, não sei! Estou pedindo sua ajuda, Elric! Se você não me ajudar, eu não sei o que vou fazer! Não tenho meios para combater um inimigo desses. Ninguém em Tellericar tem. —ele concluiu, mais calmo.

Elric encarou o mapa de novo e contou três cidades importantes vizinhas a Tellericar. Duas delas haviam pertencido ao antigo Império de Melniboné e com certeza não teriam interesse nas joias de outro lugar. Não quando se podia importar as magníficas pedrarias esculpidas em jade, rubi e diamante contendo as insígnias usadas pelos grandes imperadores do passado e que valiam mais do que todo o tesouro de cinco das principais nações dos Reinos Jovens. O que significava que a rota que os bandidos predavam só poderia ser uma...

—Eu não pretendo voltar para a cidade de onde vim. Nunca mais quero ver o deserto na minha vida. E não quero correr o risco de ser reconhecido por nenhum viajante de lá.

O Tzar não soube como reagir.

—Escute: não estou pedindo que se arrisque sozinho. Você será acompanhado pelos meus melhores homens. Além do mais, você...

—Não é isso. —Elric o interrompeu—Me sinto pouco inclinado a me envolver nos seus problemas. Até onde vejo, ela é uma feiticeira provavelmente vinda de Melniboné. Se ela está incomodando vocês em vez de voltar para casa, então ela quer algo de volta. Do contrário, não há razão para ela perturbá-lo.

Elric fez menção de lhe devolver o mapa e sair do salão. O Tzar tinha uma expressão indignada. Suas faces enrubesceram, seu olho tinha um tique nervoso e seus lábios se contorciam, balbuciando a seguinte pergunta:

—O que quer dizer? O que está insinuando?

—Envie um mensageiro. Pergunte o que ela quer. E então, entregue a ela o que ela pedir.

O albino já atravessava os vastos portões quando o Tzar brandiu as próximas palavras, evidenciando seu desespero.

—ELA PODE SER UMA ENVIADA DE SEU PRIMO YYRKOON. PARA QUESTIONAR MINHA AUTORIDADE. VOCÊ É O IMPERADOR OU NÃO É? OU DEVO SUPOR QUE MELNIBONÉ NÃO SE IMPORTA COM OS REINOS JOVENS?

Elric parou de caminhar no mesmo instante. Ele havia ignorado aquela possibilidade. Por mais que não gostasse do Tzar, por mais que algo o incomodasse naquele homem, o humano tinha razão. Se Elric não investigasse esse bando rebelde, cedo ou tarde isso poderia resultar em guerra entre Melniboné e os Reinos Jovens. E conhecendo Yyrkoon, enviar feiticeiros pelos quatro cantos do mundo para enfraquecer as lideranças políticas dos humanos parecia ser o tipo de coisa que seu primo faria.

O albino suspirou, deu meia volta e encontrou o Tzar caminhando em sua direção com a palma estendida.

—Então temos um acordo?

Relutante, Elric aceitou a missão, tomando a palma do homem na sua.

O Tzar e o príncipe se cumprimentaram em um aperto de mão amistoso, embora o olhar de Elric ainda refletisse incerteza. Ele pediu licença e se retirou do salão, caminhando altivo, como um verdadeiro imperador. O Tzar foi até a janela, observando o albino caminhando na rua, com sua longa cabeleira branca acariciada pela brisa e os melancólicos olhos vermelhos encarando os arredores.

Uma segunda figura se aproximou do Tzar e ficou observando o melniboneano ao seu lado.

—Você estava certo. —disse o Tzar, sem tirar os olhos do albino—Ele não é como os outros de sua espécie. Ele parece ser só um fracote com uma espada maior do que ele. Nunca pensei que fosse alguém tão difícil de lidar.

—Você não é o único a nutrir essa opinião a respeito de Elric de Melniboné —respondeu a voz sibilante e oleosa— Eu avisei a Sadric que seu filho era o prenúncio divino de uma maldição sobre nosso povo. Era melhor sacrificar a criança aos deuses e evitar problemas futuros. Mas como com tudo que eu dizia, ele fez pouco caso de meus conselhos.

—E quanto a Yyrkoon? Ele está enviando reforços?

O homem abriu um sorriso sinistro, mas o Tzar nada viu, mantendo o olhar na janela.

—Ah, sim. Eles estão vindo.

—Bem, eles estão demorando para chegar. Veja se ele se apressa. Temos de acabar com a resistência antes que esses insurgentes recrutem mais gente para seu serviço. Da última vez, eu escapei da morte por sorte.

O homem soltou um ruído ressentido.

— Sorte não teve nada a ver com você sair ileso. Você faz pouco caso da feitiçaria ancestral. Deveria ter mais respeito pela herança que os Lordes do Caos ensinaram ao meu povo.

O Tzar viu que chateou o melniboneano e murmurou um pedido de desculpas. O homem vivia repetindo isso pelos últimos quinze anos. Ele não aguentava mais aquela ladainha. Na mente dele, esses tais Lordes do Caos não passavam de imaginação daqueles feiticeiros, que viviam se drogando, deitados nos sofás dos palácios de imperadores já mortos de um império decadente.



—Venha. Temos muito que conversar. —disse o Tzar, conduzindo o melniboneano aos seus aposentos privados.

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