Naquela noite, Elric e seus homens achavam que não sobreviveriam ao ataque.
Algumas horas antes, o único líder dos mercenários que havia restado insistiu com o melniboneano que acampar na região era suicídio. As montanhas eram vigiadas pelos bandos que assaltavam os viajantes. E os rebeldes estariam escondidos entre um grupo desses. Mas Elric insistia que aquela era a única maneira de atraí-los para fora de seu esconderijo.
—Eles estão com tanto receio quanto nós. Somos um grupo bem armado de mais de trinta homens. Trinta homens liderados por um melniboneano — sua voz oscilava entre o orgulho e o desprezo ao falar de seu povo. E acredito que até aqui, eles conhecem as lendas a respeito da minha espada.
— Aye, eles conhecem —respondeu o mercenário, e sua expressão mudou da aflição para o sarcasmo — Todos sabem a respeito do grande Elric, que traiu o Duke Avan na distante R’lin Kren A'a. O grande Elric — sua voz se elevava, chamando atenção dos soldados, mas o albino nada fez para impedi-lo—, que deixou seu primo sanguinário assumir o trono de Melniboné e saiu por aí, caçando aventuras pelo mundo, enquanto os Reinos Jovens se viram para lidar com as invasões de frotas e dragões enviadas por aquele regente filho da puta. Aye, Elric. Nós ouvimos falar de você. E como ouvimos!
O albino se manteve na mais absoluta calma enquanto deixava o humano desabafar. Mal aquela nova aventura havia começado e ele tinha a sensação de que culminaria de uma forma ou de outra em alguma espécie de confrontação com seu primo. No fundo, Elric desejava isso. Ele estava cansado de sair pelo mundo procurando respostas às dúvidas existenciais que torturavam sua alma e acabar se defrontando somente com regiões inóspitas, espíritos desencarnados de outros planos e cidades desoladas cheias de vagabundos e assaltantes.
—É por isso que estou aqui — o príncipe retrucou em tom tranquilo — Algo cheira a dedo de Yyrkoon nesses rebeldes. Se meu primo tiver armado essa ameaça para os três reis de Tellericar, então isso me dará motivo suficiente para retornar a Melniboné e executá-lo de uma vez.
O líder permaneceu fitando o rosto albino, espantado com a astúcia dele e decidiu não reclamar mais daqui para frente.
...
O dia já virava noite quando os soldados e mercenários estavam adormecidos no vale. Era alta madrugada quando os lobos uivavam nas montanhas próximas. Mergulhados em um sono profundo, eles nada ouviam e de nada desconfiavam.
O primeiro rebelde desceu mais alguns metros da encosta, imitando o uivo do animal. Ninguém no acampamento fazia nenhum movimento. Todos permaneciam adormecidos.
O escolta fez um sinal para o colega e um segundo homem desceu a encosta mais adiante, imitando um uivo para disfarçar sua aproximação. Ele contou quantos soldados havia, quantas provisões eles haviam trazido e pelas roupas, identificou de onde eles provavelmente vinham. Fora um albino de cabelos brancos, todos eram oriundos de Tellericar e de uma ou outra cidade vizinha.
Os dois escoltas voltaram a subir a encosta até chegar a um plateau. Eles então percorreram uma longa distância até chegar ao acampamento de seu bando. Várias tendas amarronzadas podiam ser avistadas logo à frente, e uma discreta fogueira crepitava, pequena o suficiente para não chamar atenção de viajantes a alguns quilômetros do local. Eles eram aguardados por um guerreiro robusto com tatuagens no rosto e nos braços que levava um machado colossal em cima do ombro.
Os escoltas relataram o que viram e o homem se dirigiu a uma tenda maior que as outras, contendo desenhos e símbolos rúnicos. Os demais guerreiros e membros do grupo pararam seus afazeres para observá-lo. Ele anunciou sua chegada e a pessoa discretamente lhe deu permissão para entrar. Após o que pareceram ser cinco minutos, o homem emergiu acompanhado do ocupante da tenda e um jovem espadachim que ostentava vestimentas de um aristocrata.
Ele lançou um olhar para a mulher ao seu lado, irradiando respeito por sua figura.
—Altenkoenig nos envia um novo carrasco. Ele está praticamente indefeso, acompanhado de cerca de trinta homens, todos mercenários. Homens, escolham suas melhores armas. Hora de se divertirem um pouco.
A multidão de guerreiros soltaria urros de guerra se pudesse, mas com isso acabaria alertando seus inimigos. Em vez disso, eles contiveram seus gritos e saíram para apanhar suas armas. Alguns deles acariciavam suas lâminas com um brilho cintilante no olhar.
O espadachim cochichou algo no ouvido da mulher e ela retrucou suas palavras. O homem insistiu, mas ela disse um veemente ‘Não’, sacudindo a cabeça. Nenhum dos guerreiros percebeu nada, exceto pelo gigante com o machado ao seu lado.
Antes que o grupo partisse, a mulher ergueu a palma, chamando atenção de seus seguidores.
—Deixem o carrasco comigo. Ele não é tellericano. Se Altenkoenig pediu ajuda aos seus amigos mais poderosos, então só eu poderei fazer frente à sua feitiçaria. Não tentem desafiá-lo; não o provoquem. Se ele quiser lutar com um de vocês, tragam-no até mim. Ele não sabe o tamanho da surpresa que o espera. —ela acrescentou com um sorriso sardônico.
Os guerreiros soltaram risos maliciosos em resposta e se puseram a marchar em direção ao acampamento inimigo. A mulher encobriu seu rosto com um pano e murmurou em voz baixa:
—Esse estrangeiro vai se arrepender de mexer com uma sacerdotisa dos Deuses da Ordem!
...
O ataque veio de súbito. Os flecheiros dispararam contra as figuras adormecidas e vitimaram mais de dez homens de uma só vez. Ainda assim, nenhum dos sobreviventes acordou. Em seguida, os guerreiros desceram a encosta e se aproximaram de seus alvos, agitando machados, espadas e lanças com um grito de guerra. Em um movimento brusco, eles fincaram suas armas nos corpos de suas vítimas, mas elas não reagiram.
—O que está acontecendo? Já estão todos mortos? —sussurrou um dos escoltas, escondido atrás de um rochedo.
—O frio do deserto matou todos durante o sono? —seu colega especulou.
Sem ninguém se dar conta, uma saraivada de flechas atingiu os rebeldes no vale, executando vários que estavam sem armadura. Alguns que foram alvejados sobreviveram e arrancaram as flechas de seu corpo com puxões violentos. Eles estavam furiosos.
—Quem ousa atacar a gente? Onde vocês estão, seus covardes? APAREÇAM! –gritou o gigante com o machado.
Em resposta, mais flechas vieram zunindo pelos ares, desta vez em brasas. Aqueles que foram atingidos gritavam e se agitavam em pânico, sentindo o cheiro de carne queimada vindo de sua pele enquanto tentavam apagar o fogo. Em seguida, um grupo de vultos saiu detrás de alguns rochedos e degolou vários dos escoltas e guerreiros que estavam escondidos, aguardando a ordem para atacar.
—Era uma armadilha! Tarquan, remova-os do vale. Eles se escondem nas encostas!— a mulher brandiu para o espadachim.
—Onde eles estão? Não consigo vê-los! —ele gritou de volta, alarmado.
—Eles estão usando feitiçaria. Este é um feitiço melniboneano de ocultação material. Agora faça o que mandei! —ela exclamou em tom de urgência.
—Malditos! —gritou o gigante, rumando para a encosta ao ver seus companheiros degolados e desmembrados.
Os vultos agora tinham denunciado sua posição. O restante dos rebeldes saiu atrás do bando, que subia a encosta, fugindo para o topo de uma das montanhas em forma de plateau, onde mais adiante ficava o acampamento inimigo. Gritos e maldições ecoavam logo atrás deles.
—Matem esses filhos da puta! Não deixem eles alcançarem o campo!
Tarquan liderava um grupo de homens que subiam a encosta em seu encalço. A mulher vinha logo atrás. No vale, a ilusão das figuras adormecidas se desfez e agora restavam apenas o guerreiro gigante e uma dúzia de combatentes feridos.
—Feiticeiro! Amaldiçoado seja por isso!—brandiu o gigante, erguendo seu rosto para as montanhas— Apareça! O que você é, um homem ou um pedaço de merda? Um homem que não enfrenta seu inimigo de frente não é um homem!
—Mas eu não sou um homem. —ecoou a voz melancólica, silenciando o gigante.
Detrás de um rochedo surgiu uma figura pálida, tão pálida que só poderia ser um albino, trajada em uma estranha armadura negra. Seus longos cabelos brancos se agitavam com a brisa suave da noite e sua silhueta alva chegava a cintilar sob a luz da Lua. E como se sua aparência não fosse bizarra o suficiente, o estrangeiro lhe encarava através de um par de olhos avermelhados.
—Pelos deuses... o que é isso?
—Você está certo. Sou um feiticeiro. E amaldiçoado. —ele disse lentamente, sacando uma espada de fio negro da bainha e posicionando-a acima da cabeça em pose de luta. Atrás de si, mais de trinta homens surgiram, tendo se escondido como ele da visão dos rebeldes.
— Foi você que usou esse truque? —o guerreiro apontou com o machado para onde estiveram os corpos adormecidos minutos atrás.
—É claro. —seu inimigo respondeu, evidenciando a obviedade da descoberta.
—Maldição... —murmurou o gigante, irritado com a prepotência daquele anormal.
Muitos metros acima do vale, a líder dos rebeldes escutou o eco do diálogo e se virou lá para baixo. Ela enxergou a estranha figura albina e, embora não a tenha reconhecido de imediato, uma memória recente se agitou em sua mente. Mas ela não conseguia se lembrar do que era ou por que a lembrança lhe provocava um terror instintivo.
“Essa não...” –ela se deu conta de que os vultos que Tarquan perseguia eram ilusões criadas pelo feiticeiro. Seu melhores guerreiros seriam chacinados lá embaixo. Quando o espadachim voltasse, seria tarde demais para ajudar. Aquele carrasco ardiloso havia conseguido dividir e enfraquecer suas tropas. Todos seriam mortos por um grupo de mercenários muito menor em número.
O gigante brandiu o machado e correu a toda velocidade na direção do feiticeiro, urrando feito um maníaco. O albino imitou o gesto, avançando até ele com a espada em riste. Atrás de cada líder, vinha a multidão de combatentes, berrando ameaças para o lado inimigo e exigindo suas cabeças.
A mulher se posicionou na encosta de maneira a poder observar a batalha sem ser avistada pelos inimigos. Se seu plano fosse dar certo, ela precisava ser invisível. Toda vez que um de seus guerreiros era gravemente ferido, ela entoava um mantra e suas feridas se cicatrizavam em poucos segundos. Ela repetia o procedimento a cada nova vítima, adiando suas mortes.
Durante o intenso combate, o albino começou a gritar uma invocação que perturbou suas preces e abalou suas estruturas.
—Arioch! Arioch! —brandia Elric, ceifando as vidas de seus inimigos com vontade—A ti entrego as almas desses bastardos condenados, ó Duque do Inferno! Arioch, ó Soberano Absoluto do Inferno! Escuta minha oferenda! Arioch, ajuda seu fiel servo nessa batalha!
A mulher conhecia aquela prece. Era uma prece demoníaca, entoada pelo malévolo povo da infame Ilha do Dragão. Aquele combatente, quem quer que fosse, só podia ser um enviado desse povo. Mas quem ele era? E por que aquela visão lhe causava um intenso mal-estar?
O gigante era empurrado cada vez mais pela espada negra, que emprestava uma força sobrehumana ao seu portador. O guerreiro não entendia como poderia estar em desvantagem em relação a um homem fraco e deficiente.
—Arioc, Lorde da Escuridão e do Caos! Sou eu, Elric de Melniboné! Aceite as almas que ofereço a ti! Sangue e almas para meu Lorde Arioch!
A mulher finalmente reconheceu a identidade daquele homem estranho e seus olhos se arregalaram. Um albino solitário que partira do Império decadente de Melniboné e perambulava pelos Reinos Jovens sem destino, portando uma espada amaldiçoada e forjada no próprio inferno com as almas de vítimas inocentes...Stormbringer, a espada usada pelos ancestrais dos grandes imperadores do passado.
—Elric... o lendário Elric...— o nome saiu de seus lábios automaticamente.
Os fatos finalmente se encaixavam e ela agora entendia quem ele era, embora seu propósito ainda não estivesse claro. Se aquele homem de fato era Elric — O Elric—, então ele não poderia estar ali a serviço de Antioch. Então por que ele destruía as únicas pessoas capazes de fazer oposição ao seu plano de dominação de Tellericar?
A espada negra faiscou com o brilho doentio de suas runas e sua lâmina penetrou a cabeça do gigante, bebendo fundo sua alma. Do alto das montanhas, Elric ouviu um grito agoniado. Imediatamente ele ergueu seu olhar vermelho naquela direção.
“Ele não pode me ver!” —a mulher pensou aflita, procurando um meio de se esconder.
Os combatentes lá embaixo morriam sem ela poder fazer nada. Acima da encosta, ela ouvia Tarquan e os demais retornarem do plateau, atraídos pelos sons do embate no vale. O albino também havia se dado conta de sua aproximação e resolveu usar-se de sua feitiçaria novamente.
Seus olhos se iluminaram e ele abriu sua boca, deixando escapar um longo grito inumano. Ele pronunciava uma invocação na antiga língua dos reis, que aos ouvidos comuns, soava como maldições da pior espécie. O albino levou suas mãos aos céus, chamando por sabe-se lá que demônios sobrenaturais de aparência diabólica. O ar ao seu redor começou a se agitar e seus cabelos voavam por seu rosto. O próprio Elric parecia estar possuído.
Os elementais dos céus ouviram seu clamor e perguntaram o que ele desejava.
—Chuva e trovões. Que desabe uma tempestade! Destrua estas montanhas e tudo nelas! Arrase seus elevados cumes, reduzam-nas a pó e cinzas. Tragam-nas abaixo!
E como ordenado, uma tempestade magnética se formou, jorrando numerosos trovões em seus picos. Tarquan e seus homens desciam a encosta e foram vitimados pelas avalanches. Seus corpos haviam sido esmagados e os miolos, espalhados por todo lugar. Aqueles que escaparam dos rochedos que desabavam escorregaram com o aguaceiro e despencaram de uma altura de vários quilômetros, com alguns esmagando um ou outro mercenário que lutava desavisado lá embaixo.
A batalha no vale estava agora favorável aos seus homens e Elric já considerava a missão concluída quando...
Uma grande luz irrompeu da encosta e um lamento ia se elevando por todo vale. Os corpos esmagados pelos rochedos e aqueles que haviam despencado foram encobertos por uma suave luz e completamente restaurados. As vítimas acordavam assustadas, tendo sido trazidas de volta à vida poucos minutos depois de morrer.
—Pelos deuses! Elric, o que é isso?
Mas o albino não tinha respostas, limitando-se a encarar transfixado a ressurreição daqueles humanos. Ele virou o rosto para os combatentes que havia executado. Aqueles mortos por Stormbringer não voltavam à vida. Suas almas foram consumidas pela espada.
Só havia um tipo de poder capaz de realizar tamanho milagre... e pela primeira vez em muitos anos, Elric sentiu medo.
...
Um medo irracional tomou conta do albino e ele hesitava em subir a encosta para procurar o responsável pelo feito milagroso.
—Quem está aí? —o líder dos mercenários exigiu em voz alta. Elric olhou de volta para ele, achando que ele tinha enlouquecido de vez. Acaso o humano era estúpido ou o quê? Que tipo de entidade ele achava que seria capaz de interferir com tamanho poder nos assuntos da vida e da morte?
A figura daquele espadachim de cabelos longos amarrados, traços semitas e jeito aristocrático surgiu por dentre os rochedos da encosta. Tarquan e seus homens responderam de lá de cima, devolvendo ameaças ao bando.
—Feiticeiro! Você pensou que iria nos derrotar com seus truques. Mas seu poder não vale nada contra nós! Renda-se e lhe deixaremos viver.
—E quanto aos meus homens? O que acontecerá com eles? —ele gritou de volta.
—Eles terão de ser todos executados. — o espadachim avisou com finalidade na voz, e os soldados de Tellericar estremeceram.
Elric abriu um sorriso cínico e respondeu erguendo Stormbringer em riste.
—Então não temos um acordo.
Os mercenários e soldados urraram detrás de si, preparados para um segundo confronto.
Tarquan murmurou para a mulher, que se mantinha oculta esse tempo todo.
—Pelos deuses, é ele...e ele está com a espada negra. O que faremos agora?
Ela fitou por longos segundos a espada rúnica e sentiu um calafrio. Para seu temor, a espada pressentiu suas emoções de volta e reagiu na mão de Elric, agitada.
—Stormbringer? O que foi? O que...
A espada emitia um ruído agonizante, tentando fugir da mão do melniboneano. Os mercenários saíam de seu caminho, não querendo virar suas novas vítimas.
—Pare! Pare com isso! Stormbringer, PARE!
—O que ele está fazendo? —murmurou Tarquan, assistindo a cena bizarra.
—Ela sabe que eu estou aqui. —respondeu a mulher.
O espadachim a encarou diretamente nos olhos e disse:
—Você tem de fugir.
—O quê?
—Vá para Jatarka e convença o rei a recuperar Tellericar. Conte a ele do espião melniboneano.
Era evidente que a mulher detestava o plano. Por muitos dias ela discutiu com Tarquan a respeito da melhor maneira de livrar sua cidade natal da influência de Antioch. Mas até agora, nenhum deles apresentava uma solução duradoura. As três cidades vizinhas se uniriam a Tellericar. E então? Quantos meses se passariam até Yyrkoon finalmente enviar suas frotas e arrasar as quatro cidades, esmagando de vez a rebelião?
A mulher ia se recusar a concordar com o plano, mas Tarquan se adiantou a ela.
—Matem o feiticeiro e sua corja de assassinos! Ninguém sai vivo daqui!
Ela gritou um ‘não’alarmado, mas era tarde demais. Os rebeldes desceram a encosta e uma nova batalha teve início. Elric avançou à frente da horda inimiga, prestes a ceifar a vida do espadachim. Em um ato de desespero, a mulher invocou seus poderes à potência máxima e criou uma barreira impenetrável ao redor de cada um dos rebeldes. Os mercenários atacavam, mas suas armas não provocavam nenhum ferimento. Em compensação, os rebeldes fendiam membros e degolavam seus inimigos à vontade.
—Mas que merda é essa? Quem está fazendo isso? Elric! —berrou o líder dos mercenários, frustrado.
O albino lançou seu olhar avermelhado à encosta, desconfiado de alguma coisa. Era dali que um grito havia ecoado anteriormente. Um grito de mulher.
Ele saiu correndo em direção às montanhas e escalou sua encosta desimpedido. Os rebeldes estavam ocupados com os mercenários. Desesperado, Tarquan viu aonde o feiticeiro ia e gritou um longo e agoniado ‘não’. Mas seus inimigos o mantinham ocupado demais para perseguir o feiticeiro.
Elric não teve nenhuma dificuldade em encontrar a pessoa que ressuscitara os rebeldes. A luz jorrava de sua silhueta há metros de distância. Ainda com a espada embainhada, ele ficou transfixado pelo que via; a figura era nada menos que uma estranha mulher de olhos de um azul pálido e cabelos negros amarrados em intrincadas tranças atrás da cabeça, que na raiz se tornavam rapidamente grisalhos.
Ela o encarava de volta, emudecida, e ele a ela. Ambos se mediam sem proferir uma palavra. Seus olhos vermelhos passearam pelo rosto outrora suave, mas que agora, continha estranhas linhas finas, como fios de sangue. O olhar dela, embora calmo, cintilava com um brilho característico de quem vivia uma existência nômade, evadindo-se por anos e assolada pelas inquietações quanto ao futuro.
O tempo todo, Stormbringer se agitava violentamente na bainha, como se pressentindo algo terrível. O albino fingiu que nada acontecia.
—Você me encontrou. —a mulher disse de repente, e sua voz rouca denunciava sua angústia— Mas se você quer evitar um desastre, vai me deixar ir.
—Por que eu faria isso? —ele retrucou, segurando a bainha com um aperto firme.
A mulher recuou, pressentindo que ele não lhe daria ouvidos. Os gritos lá embaixo ecoavam com mais frequência. Os mercenários estavam sendo trucidados.
O melniboneano avançou mais alguns passos em direção a ela, sentindo seu sangue ferver e sua face queimar. Aquela era a líder que havia vitimado o Tzar Altenkoenig e envenenado uma população inteira com um poderoso sonífero. Por que ele deveria recuar agora?
Se Elric ainda fosse o príncipe recém-saído de sua terra natal, ele não agiria da forma que escolheu agir. Naqueles dias, Elric ainda era um homem filosófico, afeito Às ideias e curioso quanto às contradições inerentes da vida. Sua atitude perante o mundo era como a de um explorador, aberto a novas experiências e ao aprendizado. Mas os anos haviam se passado e suas viagens pelo mundo lhe trouxeram nada além de sofrimento, remorso e reforçaram seu ódio contra si mesmo. Elric, o traidor de amigos. Elric, o matador de amigos. Para todos os efeitos, as tragédias só serviram para confirmar uma coisa: Elric era amaldiçoado, e uma espada amaldiçoada era a arma ideal para um homem como ele. Assim como sua espada, ele agora sentia deleite em tirar as vidas de suas vítimas. Ele e Stormbringer agora eram uma só entidade.
Essa era sua nova consciência... e foi orientado por essa filosofia tenebrosa que ele sacou sua espada e avançou na líder dos rebeldes.
A mulher ainda tentou impedi-lo, urgindo em um derradeiro grito desesperado para que o melniboneano não lhe desse o golpe fatal, mas seu clamor de nada adiantou contra a vontade ferrenha de seu algoz. A lâmina de Stormbringer entrou em contato com a pele da mulher...e duas coisas aconteceram.
Para surpresa de Elric, a mulher não foi trespassada e sequer jorrou sangue de seu cadáver. A lâmina ricocheteou com violência e a espada escapou de suas mãos com tamanha velocidade que queimou seus dedos. Em seguida, o próprio Elric foi atirado para longe em um clarão de luz ofuscante, seguido do som ensurdecedor de uma explosão.
O albino sentiu seu corpo queimar como se ele tivesse mergulhado no poço mais profundo do Inferno e sua pele ser trespassada por milhares de agulhas ao mesmo tempo antes de perder a consciência e o mundo ao seu redor desaparecer em uma bola de luz.



