segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Capítulo 4: O Feitiço Se Volta Contra o Feiticeiro




Naquela noite, Elric e seus homens achavam que não sobreviveriam ao ataque.

Algumas horas antes, o único líder dos mercenários que havia restado insistiu com o melniboneano que acampar na região era suicídio. As montanhas eram vigiadas pelos bandos que assaltavam os viajantes. E os rebeldes estariam escondidos entre um grupo desses. Mas Elric insistia que aquela era a única maneira de atraí-los para fora de seu esconderijo.

—Eles estão com tanto receio quanto nós. Somos um grupo bem armado de mais de trinta homens. Trinta homens liderados por um melniboneano — sua voz oscilava entre o orgulho e o desprezo ao falar de seu povo. E acredito que até aqui, eles conhecem as lendas a respeito da minha espada.

— Aye, eles conhecem —respondeu o mercenário, e sua expressão mudou da aflição para o sarcasmo — Todos sabem a respeito do grande Elric, que traiu o Duke Avan na distante R’lin Kren A'a. O grande Elric — sua voz se elevava, chamando atenção dos soldados, mas o albino nada fez para impedi-lo—, que deixou seu primo sanguinário assumir o trono de Melniboné e saiu por aí, caçando aventuras pelo mundo, enquanto os Reinos Jovens se viram para lidar com as invasões de frotas e dragões enviadas por aquele regente filho da puta. Aye, Elric. Nós ouvimos falar de você. E como ouvimos!

O albino se manteve na mais absoluta calma enquanto deixava o humano desabafar. Mal aquela nova aventura havia começado e ele tinha a sensação de que culminaria de uma forma ou de outra em alguma espécie de confrontação com seu primo. No fundo, Elric desejava isso. Ele estava cansado de sair pelo mundo procurando respostas às dúvidas existenciais que torturavam sua alma e acabar se defrontando somente com regiões inóspitas, espíritos desencarnados de outros planos e cidades desoladas cheias de vagabundos e assaltantes.

—É por isso que estou aqui — o príncipe retrucou em tom tranquilo — Algo cheira a dedo de Yyrkoon nesses rebeldes. Se meu primo tiver armado essa ameaça para os três reis de Tellericar, então isso me dará motivo suficiente para retornar a Melniboné e executá-lo de uma vez.

O líder permaneceu fitando o rosto albino, espantado com a astúcia dele e decidiu não reclamar mais daqui para frente.

...

O dia já virava noite quando os soldados e mercenários estavam adormecidos no vale. Era alta madrugada quando os lobos uivavam nas montanhas próximas. Mergulhados em um sono profundo, eles nada ouviam e de nada desconfiavam.

O primeiro rebelde desceu mais alguns metros da encosta, imitando o uivo do animal. Ninguém no acampamento fazia nenhum movimento. Todos permaneciam adormecidos.

O escolta fez um sinal para o colega e um segundo homem desceu a encosta mais adiante, imitando um uivo para disfarçar sua aproximação. Ele contou quantos soldados havia, quantas provisões eles haviam trazido e pelas roupas, identificou de onde eles provavelmente vinham. Fora um albino de cabelos brancos, todos eram oriundos de Tellericar e de uma ou outra cidade vizinha.

Os dois escoltas voltaram a subir a encosta até chegar a um plateau. Eles então percorreram uma longa distância até chegar ao acampamento de seu bando. Várias tendas amarronzadas podiam ser avistadas logo à frente, e uma discreta fogueira crepitava, pequena o suficiente para não chamar atenção de viajantes a alguns quilômetros do local. Eles eram aguardados por um guerreiro robusto com tatuagens no rosto e nos braços que levava um machado colossal em cima do ombro.

Os escoltas relataram o que viram e o homem se dirigiu a uma tenda maior que as outras, contendo desenhos e símbolos rúnicos. Os demais guerreiros e membros do grupo pararam seus afazeres para observá-lo. Ele anunciou sua chegada e a pessoa discretamente lhe deu permissão para entrar. Após o que pareceram ser cinco minutos, o homem emergiu acompanhado do ocupante da tenda e um jovem espadachim que ostentava vestimentas de um aristocrata.

Ele lançou um olhar para a mulher ao seu lado, irradiando respeito por sua figura.

—Altenkoenig nos envia um novo carrasco. Ele está praticamente indefeso, acompanhado de cerca de trinta homens, todos mercenários. Homens, escolham suas melhores armas. Hora de se divertirem um pouco.

A multidão de guerreiros soltaria urros de guerra se pudesse, mas com isso acabaria alertando seus inimigos. Em vez disso, eles contiveram seus gritos e saíram para apanhar suas armas. Alguns deles acariciavam suas lâminas com um brilho cintilante no olhar.

O espadachim cochichou algo no ouvido da mulher e ela retrucou suas palavras. O homem insistiu, mas ela disse um veemente ‘Não’, sacudindo a cabeça. Nenhum dos guerreiros percebeu nada, exceto pelo gigante com o machado ao seu lado.

Antes que o grupo partisse, a mulher ergueu a palma, chamando atenção de seus seguidores.

—Deixem o carrasco comigo. Ele não é tellericano. Se Altenkoenig pediu ajuda aos seus amigos mais poderosos, então só eu poderei fazer frente à sua feitiçaria. Não tentem desafiá-lo; não o provoquem. Se ele quiser lutar com um de vocês, tragam-no até mim. Ele não sabe o tamanho da surpresa que o espera. —ela acrescentou com um sorriso sardônico.

Os guerreiros soltaram risos maliciosos em resposta e se puseram a marchar em direção ao acampamento inimigo. A mulher encobriu seu rosto com um pano e murmurou em voz baixa:

—Esse estrangeiro vai se arrepender de mexer com uma sacerdotisa dos Deuses da Ordem!

...

O ataque veio de súbito. Os flecheiros dispararam contra as figuras adormecidas e vitimaram mais de dez homens de uma só vez. Ainda assim, nenhum dos sobreviventes acordou. Em seguida, os guerreiros desceram a encosta e se aproximaram de seus alvos, agitando machados, espadas e lanças com um grito de guerra. Em um movimento brusco, eles fincaram suas armas nos corpos de suas vítimas, mas elas não reagiram.

—O que está acontecendo? Já estão todos mortos? —sussurrou um dos escoltas, escondido atrás de um rochedo.

—O frio do deserto matou todos durante o sono? —seu colega especulou.

Sem ninguém se dar conta, uma saraivada de flechas atingiu os rebeldes no vale, executando vários que estavam sem armadura. Alguns que foram alvejados sobreviveram e arrancaram as flechas de seu corpo com puxões violentos. Eles estavam furiosos.

—Quem ousa atacar a gente? Onde vocês estão, seus covardes? APAREÇAM! –gritou o gigante com o machado.

Em resposta, mais flechas vieram zunindo pelos ares, desta vez em brasas. Aqueles que foram atingidos gritavam e se agitavam em pânico, sentindo o cheiro de carne queimada vindo de sua pele enquanto tentavam apagar o fogo. Em seguida, um grupo de vultos saiu detrás de alguns rochedos e degolou vários dos escoltas e guerreiros que estavam escondidos, aguardando a ordem para atacar.

—Era uma armadilha! Tarquan, remova-os do vale. Eles se escondem nas encostas!— a mulher brandiu para o espadachim.

—Onde eles estão? Não consigo vê-los! —ele gritou de volta, alarmado.

—Eles estão usando feitiçaria. Este é um feitiço melniboneano de ocultação material. Agora faça o que mandei! —ela exclamou em tom de urgência.

—Malditos! —gritou o gigante, rumando para a encosta ao ver seus companheiros degolados e desmembrados.

Os vultos agora tinham denunciado sua posição. O restante dos rebeldes saiu atrás do bando, que subia a encosta, fugindo para o topo de uma das montanhas em forma de plateau, onde mais adiante ficava o acampamento inimigo. Gritos e maldições ecoavam logo atrás deles.

—Matem esses filhos da puta! Não deixem eles alcançarem o campo!

Tarquan liderava um grupo de homens que subiam a encosta em seu encalço. A mulher vinha logo atrás. No vale, a ilusão das figuras adormecidas se desfez e agora restavam apenas o guerreiro gigante e uma dúzia de combatentes feridos.

—Feiticeiro! Amaldiçoado seja por isso!—brandiu o gigante, erguendo seu rosto para as montanhas— Apareça! O que você é, um homem ou um pedaço de merda? Um homem que não enfrenta seu inimigo de frente não é um homem!

—Mas eu não sou um homem. —ecoou a voz melancólica, silenciando o gigante.

Detrás de um rochedo surgiu uma figura pálida, tão pálida que só poderia ser um albino, trajada em uma estranha armadura negra. Seus longos cabelos brancos se agitavam com a brisa suave da noite e sua silhueta alva chegava a cintilar sob a luz da Lua. E como se sua aparência não fosse bizarra o suficiente, o estrangeiro lhe encarava através de um par de olhos avermelhados.

—Pelos deuses... o que é isso?

—Você está certo. Sou um feiticeiro. E amaldiçoado. —ele disse lentamente, sacando uma espada de fio negro da bainha e posicionando-a acima da cabeça em pose de luta. Atrás de si, mais de trinta homens surgiram, tendo se escondido como ele da visão dos rebeldes.

— Foi você que usou esse truque? —o guerreiro apontou com o machado para onde estiveram os corpos adormecidos minutos atrás.

—É claro. —seu inimigo respondeu, evidenciando a obviedade da descoberta.

—Maldição... —murmurou o gigante, irritado com a prepotência daquele anormal.

Muitos metros acima do vale, a líder dos rebeldes escutou o eco do diálogo e se virou lá para baixo. Ela enxergou a estranha figura albina e, embora não a tenha reconhecido de imediato, uma memória recente se agitou em sua mente. Mas ela não conseguia se lembrar do que era ou por que a lembrança lhe provocava um terror instintivo.

“Essa não...” –ela se deu conta de que os vultos que Tarquan perseguia eram ilusões criadas pelo feiticeiro. Seu melhores guerreiros seriam chacinados lá embaixo. Quando o espadachim voltasse, seria tarde demais para ajudar. Aquele carrasco ardiloso havia conseguido dividir e enfraquecer suas tropas. Todos seriam mortos por um grupo de mercenários muito menor em número.

O gigante brandiu o machado e correu a toda velocidade na direção do feiticeiro, urrando feito um maníaco. O albino imitou o gesto, avançando até ele com a espada em riste. Atrás de cada líder, vinha a multidão de combatentes, berrando ameaças para o lado inimigo e exigindo suas cabeças.

A mulher se posicionou na encosta de maneira a poder observar a batalha sem ser avistada pelos inimigos. Se seu plano fosse dar certo, ela precisava ser invisível. Toda vez que um de seus guerreiros era gravemente ferido, ela entoava um mantra e suas feridas se cicatrizavam em poucos segundos. Ela repetia o procedimento a cada nova vítima, adiando suas mortes.

Durante o intenso combate, o albino começou a gritar uma invocação que perturbou suas preces e abalou suas estruturas.

—Arioch! Arioch! —brandia Elric, ceifando as vidas de seus inimigos com vontade—A ti entrego as almas desses bastardos condenados, ó Duque do Inferno! Arioch, ó Soberano Absoluto do Inferno! Escuta minha oferenda! Arioch, ajuda seu fiel servo nessa batalha!

A mulher conhecia aquela prece. Era uma prece demoníaca, entoada pelo malévolo povo da infame Ilha do Dragão. Aquele combatente, quem quer que fosse, só podia ser um enviado desse povo. Mas quem ele era? E por que aquela visão lhe causava um intenso mal-estar?

O gigante era empurrado cada vez mais pela espada negra, que emprestava uma força sobrehumana ao seu portador. O guerreiro não entendia como poderia estar em desvantagem em relação a um homem fraco e deficiente.

—Arioc, Lorde da Escuridão e do Caos! Sou eu, Elric de Melniboné! Aceite as almas que ofereço a ti! Sangue e almas para meu Lorde Arioch!

A mulher finalmente reconheceu a identidade daquele homem estranho e seus olhos se arregalaram. Um albino solitário que partira do Império decadente de Melniboné e perambulava pelos Reinos Jovens sem destino, portando uma espada amaldiçoada e forjada no próprio inferno com as almas de vítimas inocentes...Stormbringer, a espada usada pelos ancestrais dos grandes imperadores do passado.

—Elric... o lendário Elric...— o nome saiu de seus lábios automaticamente.

Os fatos finalmente se encaixavam e ela agora entendia quem ele era, embora seu propósito ainda não estivesse claro. Se aquele homem de fato era Elric — O Elric—, então ele não poderia estar ali a serviço de Antioch. Então por que ele destruía as únicas pessoas capazes de fazer oposição ao seu plano de dominação de Tellericar?

A espada negra faiscou com o brilho doentio de suas runas e sua lâmina penetrou a cabeça do gigante, bebendo fundo sua alma. Do alto das montanhas, Elric ouviu um grito agoniado. Imediatamente ele ergueu seu olhar vermelho naquela direção.

“Ele não pode me ver!” —a mulher pensou aflita, procurando um meio de se esconder.

Os combatentes lá embaixo morriam sem ela poder fazer nada. Acima da encosta, ela ouvia Tarquan e os demais retornarem do plateau, atraídos pelos sons do embate no vale. O albino também havia se dado conta de sua aproximação e resolveu usar-se de sua feitiçaria novamente.

Seus olhos se iluminaram e ele abriu sua boca, deixando escapar um longo grito inumano. Ele pronunciava uma invocação na antiga língua dos reis, que aos ouvidos comuns, soava como maldições da pior espécie. O albino levou suas mãos aos céus, chamando por sabe-se lá que demônios sobrenaturais de aparência diabólica. O ar ao seu redor começou a se agitar e seus cabelos voavam por seu rosto. O próprio Elric parecia estar possuído.

Os elementais dos céus ouviram seu clamor e perguntaram o que ele desejava.

—Chuva e trovões. Que desabe uma tempestade! Destrua estas montanhas e tudo nelas! Arrase seus elevados cumes, reduzam-nas a pó e cinzas. Tragam-nas abaixo!

E como ordenado, uma tempestade magnética se formou, jorrando numerosos trovões em seus picos. Tarquan e seus homens desciam a encosta e foram vitimados pelas avalanches. Seus corpos haviam sido esmagados e os miolos, espalhados por todo lugar. Aqueles que escaparam dos rochedos que desabavam escorregaram com o aguaceiro e despencaram de uma altura de vários quilômetros, com alguns esmagando um ou outro mercenário que lutava desavisado lá embaixo.

A batalha no vale estava agora favorável aos seus homens e Elric já considerava a missão concluída quando...

Uma grande luz irrompeu da encosta e um lamento ia se elevando por todo vale. Os corpos esmagados pelos rochedos e aqueles que haviam despencado foram encobertos por uma suave luz e completamente restaurados. As vítimas acordavam assustadas, tendo sido trazidas de volta à vida poucos minutos depois de morrer.

—Pelos deuses! Elric, o que é isso?

Mas o albino não tinha respostas, limitando-se a encarar transfixado a ressurreição daqueles humanos. Ele virou o rosto para os combatentes que havia executado. Aqueles mortos por Stormbringer não voltavam à vida. Suas almas foram consumidas pela espada.

Só havia um tipo de poder capaz de realizar tamanho milagre... e pela primeira vez em muitos anos, Elric sentiu medo.

...

Um medo irracional tomou conta do albino e ele hesitava em subir a encosta para procurar o responsável pelo feito milagroso.

—Quem está aí? —o líder dos mercenários exigiu em voz alta. Elric olhou de volta para ele, achando que ele tinha enlouquecido de vez. Acaso o humano era estúpido ou o quê? Que tipo de entidade ele achava que seria capaz de interferir com tamanho poder nos assuntos da vida e da morte?

A figura daquele espadachim de cabelos longos amarrados, traços semitas e jeito aristocrático surgiu por dentre os rochedos da encosta. Tarquan e seus homens responderam de lá de cima, devolvendo ameaças ao bando.

—Feiticeiro! Você pensou que iria nos derrotar com seus truques. Mas seu poder não vale nada contra nós! Renda-se e lhe deixaremos viver.

—E quanto aos meus homens? O que acontecerá com eles? —ele gritou de volta.

—Eles terão de ser todos executados. — o espadachim avisou com finalidade na voz, e os soldados de Tellericar estremeceram.

Elric abriu um sorriso cínico e respondeu erguendo Stormbringer em riste.

—Então não temos um acordo.

Os mercenários e soldados urraram detrás de si, preparados para um segundo confronto.

Tarquan murmurou para a mulher, que se mantinha oculta esse tempo todo.

—Pelos deuses, é ele...e ele está com a espada negra. O que faremos agora?

Ela fitou por longos segundos a espada rúnica e sentiu um calafrio. Para seu temor, a espada pressentiu suas emoções de volta e reagiu na mão de Elric, agitada.

—Stormbringer? O que foi? O que...

A espada emitia um ruído agonizante, tentando fugir da mão do melniboneano. Os mercenários saíam de seu caminho, não querendo virar suas novas vítimas.

—Pare! Pare com isso! Stormbringer, PARE!

—O que ele está fazendo? —murmurou Tarquan, assistindo a cena bizarra.

—Ela sabe que eu estou aqui. —respondeu a mulher.

O espadachim a encarou diretamente nos olhos e disse:

—Você tem de fugir.

—O quê?

—Vá para Jatarka e convença o rei a recuperar Tellericar. Conte a ele do espião melniboneano.

Era evidente que a mulher detestava o plano. Por muitos dias ela discutiu com Tarquan a respeito da melhor maneira de livrar sua cidade natal da influência de Antioch. Mas até agora, nenhum deles apresentava uma solução duradoura. As três cidades vizinhas se uniriam a Tellericar. E então? Quantos meses se passariam até Yyrkoon finalmente enviar suas frotas e arrasar as quatro cidades, esmagando de vez a rebelião?

A mulher ia se recusar a concordar com o plano, mas Tarquan se adiantou a ela.

—Matem o feiticeiro e sua corja de assassinos! Ninguém sai vivo daqui!

Ela gritou um ‘não’alarmado, mas era tarde demais. Os rebeldes desceram a encosta e uma nova batalha teve início. Elric avançou à frente da horda inimiga, prestes a ceifar a vida do espadachim. Em um ato de desespero, a mulher invocou seus poderes à potência máxima e criou uma barreira impenetrável ao redor de cada um dos rebeldes. Os mercenários atacavam, mas suas armas não provocavam nenhum ferimento. Em compensação, os rebeldes fendiam membros e degolavam seus inimigos à vontade.

—Mas que merda é essa? Quem está fazendo isso? Elric! —berrou o líder dos mercenários, frustrado.

O albino lançou seu olhar avermelhado à encosta, desconfiado de alguma coisa. Era dali que um grito havia ecoado anteriormente. Um grito de mulher.

Ele saiu correndo em direção às montanhas e escalou sua encosta desimpedido. Os rebeldes estavam ocupados com os mercenários. Desesperado, Tarquan viu aonde o feiticeiro ia e gritou um longo e agoniado ‘não’. Mas seus inimigos o mantinham ocupado demais para perseguir o feiticeiro.

Elric não teve nenhuma dificuldade em encontrar a pessoa que ressuscitara os rebeldes. A luz jorrava de sua silhueta há metros de distância. Ainda com a espada embainhada, ele ficou transfixado pelo que via; a figura era nada menos que uma estranha mulher de olhos de um azul pálido e cabelos negros amarrados em intrincadas tranças atrás da cabeça, que na raiz se tornavam rapidamente grisalhos.

Ela o encarava de volta, emudecida, e ele a ela. Ambos se mediam sem proferir uma palavra. Seus olhos vermelhos passearam pelo rosto outrora suave, mas que agora, continha estranhas linhas finas, como fios de sangue. O olhar dela, embora calmo, cintilava com um brilho característico de quem vivia uma existência nômade, evadindo-se por anos e assolada pelas inquietações quanto ao futuro.

O tempo todo, Stormbringer se agitava violentamente na bainha, como se pressentindo algo terrível. O albino fingiu que nada acontecia.

—Você me encontrou. —a mulher disse de repente, e sua voz rouca denunciava sua angústia— Mas se você quer evitar um desastre, vai me deixar ir.

—Por que eu faria isso? —ele retrucou, segurando a bainha com um aperto firme.

A mulher recuou, pressentindo que ele não lhe daria ouvidos. Os gritos lá embaixo ecoavam com mais frequência. Os mercenários estavam sendo trucidados.

O melniboneano avançou mais alguns passos em direção a ela, sentindo seu sangue ferver e sua face queimar. Aquela era a líder que havia vitimado o Tzar Altenkoenig e envenenado uma população inteira com um poderoso sonífero. Por que ele deveria recuar agora?

Se Elric ainda fosse o príncipe recém-saído de sua terra natal, ele não agiria da forma que escolheu agir. Naqueles dias, Elric ainda era um homem filosófico, afeito Às ideias e curioso quanto às contradições inerentes da vida. Sua atitude perante o mundo era como a de um explorador, aberto a novas experiências e ao aprendizado. Mas os anos haviam se passado e suas viagens pelo mundo lhe trouxeram nada além de sofrimento, remorso e reforçaram seu ódio contra si mesmo. Elric, o traidor de amigos. Elric, o matador de amigos. Para todos os efeitos, as tragédias só serviram para confirmar uma coisa: Elric era amaldiçoado, e uma espada amaldiçoada era a arma ideal para um homem como ele. Assim como sua espada, ele agora sentia deleite em tirar as vidas de suas vítimas. Ele e Stormbringer agora eram uma só entidade.

Essa era sua nova consciência... e foi orientado por essa filosofia tenebrosa que ele sacou sua espada e avançou na líder dos rebeldes.

A mulher ainda tentou impedi-lo, urgindo em um derradeiro grito desesperado para que o melniboneano não lhe desse o golpe fatal, mas seu clamor de nada adiantou contra a vontade ferrenha de seu algoz. A lâmina de Stormbringer entrou em contato com a pele da mulher...e duas coisas aconteceram.

Para surpresa de Elric, a mulher não foi trespassada e sequer jorrou sangue de seu cadáver. A lâmina ricocheteou com violência e a espada escapou de suas mãos com tamanha velocidade que queimou seus dedos. Em seguida, o próprio Elric foi atirado para longe em um clarão de luz ofuscante, seguido do som ensurdecedor de uma explosão.

O albino sentiu seu corpo queimar como se ele tivesse mergulhado no poço mais profundo do Inferno e sua pele ser trespassada por milhares de agulhas ao mesmo tempo antes de perder a consciência e o mundo ao seu redor desaparecer em uma bola de luz.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Capítulo 3: As Dunas da Perdição





O frio extremo em meio às dunas incomodava a sensível pele do albino. Ali, enrolado em um cobertor tecido por mãos humanas, o melniboneano se deitava numa espécie de tapete liso, assim como os demais soldados e mercenários, espalhados pelo acampamento.

Seu capacete repousava logo acima de sua cabeça e ele dormia com Stormbringer ao seu lado. O príncipe não se afastava da espada nem por um segundo, mantendo a bainha presa ao cinto de couro negro, mesmo que ela a incomodasse enquanto descansava. Se a espada fosse parar em mãos humanas, haveria uma carnificina no campo. O albino não queria acordar cercado de membros e cabeças decepadas, completamente sozinho no meio das Dunas da Perdição. Sua arma era ardilosa demais para ser controlada por um ser de mente fraca. Ainda mais por um humano, que nada entendia dos meandros da feitiçaria.

Elric se forçava a cair no sono, mas sua mente era atormentada por um constante fluxo de pensamentos. Desde a despedida de Tellericar, o príncipe se sentia inquieto. Ele havia se assegurado contra uma possível traição do Tzar ao contratar seus próprios mercenários. Mas depois de reconhecer um melniboneano entre a trindade que governava Tellericar, ele já não se sentia mais tão seguro quanto ao resultado daquela missão.

...

A comitiva havia saído da cidade há apenas uma semana. Nesse prazo, Elric havia recrutado cerca de cinco líderes de grupos mercenários a seu serviço. A reputação do príncipe como exímio guerreiro havia se disseminado rapidamente pelos Reinos Jovens. Não só isso, como a lendária riqueza dos melniboneanos abria os olhos de todos que desejavam uma fortuna rápida, mesmo que ela pudesse vir acompanhada de uma morte prematura. E foi assim que Elric obteve a lealdade de mais de quarenta homens em apenas um par de dias, para surpresa do Tzar Altenkoenig... e do restante do triunvirato.

O Tzar e mais os dois reis de Tellericar se assustaram com o tipo de companhia a que o príncipe se sujeitou a ter ao seu lado. A maioria daqueles mercenários eram ex-fugitivos, assassinos, ex-piratas, embora nem todos tivessem um passado duvidoso. O Tzar reconhecia um ou dois que tentaram roubar um rico comerciante da região, mas preferiu não se pronunciar a respeito. Que Elric os levasse consigo na expedição. Se eles morressem no deserto, seria até melhor!

—Elric, eu não esperava que você fosse tomar a iniciativa de montar seu próprio exército. —disse o Tzar durante a despedida oficial, perante os maciços portões da cidade— Eu tomei a providência de designar meus melhores soldados para lhe acompanharem na viagem.

Altenkoenig gesticulou para uma tropa de cinquenta soldados, todos uniformizados em trajes militares impressionantes. Elric meramente balançou a cabeça, achando que, dentro daquelas pesadas roupas de veludo, eles cozinhariam rápido no deserto.

—Não achou que lhe deixaríamos partir sozinho, não é? –sugeriu o Tzar.

O albino achava graça do homem usar o sujeito no plural quando, obviamente, era somente ele quem governava em Tellericar. Nenhum dos dois reis viera lhe dirigir a palavra durante esse tempo todo. Eles existiam e de fato possuíam dois sextos das terras da região. O restante permanecia sob administração de Altenkoenig. A essa altura, o melniboneano já tinha deduzido que o triunvirato só existia no nome. Sabe-se lá por que razões os dois governantes restantes preferiram essa configuração política. Os humanos eram difíceis de entender a partir de sua filosofia melniboneana.

—Ah,e aqui eles estão! –exclamou o Tzar, gesticulando para seus dois aliados.

Um homem de fortes traços semitas e vestindo trajes brancos da cabeça aos pés desceu de uma cadeira –na verdade um trono- ajustada nas costas de um camelo e foi cumprimentar o príncipe. Apesar da proteção fornecida por suas vestes, sua pele era bastante bronzeada. A mão amorenada tomou a albina na sua, cumprimentando o melniboneano.

Logo em seguida veio um homem que desde o início causou uma forte impressão em Elric. Algo dentro dele se agitou na presença do terceiro rei, que vinha conduzido por uma carruagem aberta. Suas roupas eram confeccionadas ao estilo dos tecelãos humanos; seus cabelos eram penteados segundo a moda dos aristocratas humanos; até a cor de sua pele e sua aparência física eram totalmente humanos. Mas havia coisas que fugiam aos sentidos de um humano comum, emanações que ficavam evidentes nos outros planos, os quais apenas um melniboneano tinha uma sensibilidade refinada para reconhecer...

O terceiro rei cumprimentou Elric e naquele aperto de mão, ele reconheceu em seu olhar o brilho típico da loucura de seu povo, oculto sob uma expressão plácida fingida.

“O que raios um melniboneano está fazendo disfarçado entre os reis humanos? Foi Yyrkoon quem infiltrou esse maldito na corte de Tellericar? Como ele ganhou a confiança de um governante dos Reinos Jovens?”

O príncipe nada disse, controlando o impulso de desmascarar aquela fraude, fazendo o possível para não deixar seu rosto trair a intensa angústia que o corroía por dentro.

Os três reis ficaram alinhados em frente ao albino, falando em sequência.

—Elric de Melniboné, é com a benção de Tzar Altenkoenig III... –ele disse em voz solene, se curvando.

— Zahir Al-Hassam Nashid... –curvou-se o segundo.

—E Antioch Theleikos VIII... – curvou-se o terceiro, e ele sustentou o olhar sinistro no rosto do albino por uma fração de segundo a mais.

—...Que lhe desejamos uma viagem segura até as Dunas da Perdição e além. Rezaremos a cada dia aos deuses pelo seu retorno, são e salvo, de sua missão. Que eles abram seu caminho e o destino esteja ao seu favor, príncipe Elric!

Os portões se abriram e por eles caminharam os noventa homens, liderados pelo albino com a espada negra. Alguns segundos antes de cruzar os limites da cidade, o príncipe questionou silenciosamente se não seria uma boa ideia apenas desistir daquela missão suicida. A presença de um melniboneano em Tellericar cheirava mal. Havia o dedo de um feiticeiro nisso tudo, e onde havia um membro do seu povo, havia alguma traição em andamento. Mas agora era tarde demais para voltar atrás.

Elric escutou os portões se fecharem com um estrondo e encarou as dunas à sua frente, que se estendiam por milhares de quilômetros, um mar de areia que prometia uma morte rápida, fosse pelo calor escaldante, fosse pelos bandos de saqueadores que assolavam a região.

...

Não levou mais de uma semana para o grupo encontrar um comboio de caravanas vindo da cidade vizinha. A princípio os comerciantes se assustaram com aquela massa de homens armados – e a figura de um andarilho pálido semelhante a um demônio do círculo mais profundo do inferno portando uma espada negra fazia pouco para melhorar a impressão que eles causavam-, mas Elric tratou de usar sua característica diplomacia, algo que vinha naturalmente a todo membro da aristocracia, e convenceu os comerciantes a deixarem os mercenários acompanharem o comboio, com direito a beber um pouco da água que eles traziam, em troca de escoltá-los em segurança pelo deserto enquanto seus caminhos coincidissem.

O grupo parou perto de um oásis, um dos poucos que existiam naquela imensidão de areia sem fim. Alguns dos homens estavam com insolação e aproveitaram para deitar embaixo das árvores por algumas horas. Um dos comerciantes ficou conversando com dois líderes mercenários, e ele parecia estar bastante interessado em Elric. Um albino viajar pelo deserto era no mínimo interessante, dado que a combinação de falta de melanina e sol intenso era suicídio.

Mas o próprio Elric pouco ou nada sofria com aquele excesso de calor e luz. O albino havia removido a camisola branca após a primeira noite de viagem e a enfiado debaixo do capacete. Ele agora parecia um verdadeiro viajante do deserto, com o tecido branco – ou quase branco, dado que a camisola havia vivenciado os anos mais intensos de suas aventuras consigo – flutuando junto de sua cabeleira branca, protegendo a cabeça e as costas.

A única parte que Elric não conseguia proteger eram os olhos. Mas fosse por algum milagre ou propriedade fisiológica de seu povo, ele mal se incomodava com aquela luminosidade toda.

—Tsc, vou te contar... esses malditos não morrem fácil.—comentou o líder do comboio, observando o melniboneano à distância— Olhem aquilo; pelo amor dos deuses, o sujeito é uma porra de um albino! Se fosse um humano, já teria virado churrasco.

—Churrasco quem vira é aquele ali. —retrucou um dos mercenários, apontando para um homem forte de pele negra—Sorte daquele puto. A pele dele é tão escura que ele não queima de jeito nenhum.

O homem ficou encarando o mercenário moreno por alguns segundos.

—Pela tua cara, você tá querendo um pedaço desse churrasco aí, hein? Qual você vai querer? A linguiça? Ela já deve estar bem passada agora. —disse o mercenário ao lado dele, às gargalhadas. O outro lhe deu um chute, mas desatou a rir também.

Os três voltaram a observar o melniboneano, que agora olhava em volta assustado, como se vendo fantasmas.

—Ei, qual é o problema dele? —fez o comerciante.

—Sei lá. Deve estar vendo miragens. —sugeriu um mercenário.

O albino caminhou até o trio, ofegante. Seus olhos faiscavam como duas chamas, tamanha a intensidade com que o tom vermelho cintilava.

—Onde estamos? —ele perguntou em voz alarmada.

O comerciante puxou um mapa de sua caravana e mostrou ao albino.

—Hum, deixe-me ver...aqui. —ele apontou com o dedo para o oásis desenhado.

Elric tracejou a rota de Tellericar até o local e murmurou um ‘não pode ser’.

—Não pode ser o quê? —fez um mercenário.

O melniboneano sacou o mapa dado a ele por Tzar Altenkoenig e comparou ambos. Ele começou a repetir ‘não pode ser’ várias vezes, sem parar.

—Não pode ser o quê? —desta vez o mercenário exclamou, ficando ansioso.

O príncipe lançou um último olhar alarmado aos companheiros antes da terra tremer e o oásis ser engolido por um abismo, que surgiu desavisado entre as dunas.

O melniboneano saiu correndo o mais rápido que podia para longe de seu epicentro. Se ele estivesse correto, o abismo só pararia de crescer quando ele alcançasse uma distância de cem metros do local onde antes estivera o oásis. Os homens soltavam urros desesperados enquanto eram engolidos pela terra. Quase todas as caravanas desapareceram, restando apenas algumas que estacionaram mais ao longe. Ao verem a tragédia, os demais comerciantes logo afastaram o restante do comboio do local, evitando serem vitimados.

Quando o abismo parou de crescer, agora havia um grande buraco no meio do deserto. Nenhum dos homens que estava descansando no oásis sobreviveu. Elric foi o único a ter sorte.

—PELOS DEUSES! QUE PORRA FOI AQUILO? O QUE ACONTECEU? —exclamou um dos comerciantes, alarmado.

Elric arfava e não conseguia respirar direito, imagine falar. Com muito esforço, ele se endireitou e, inspirando fundo, disse:

—Aquela... era... areia...movediça... um grande... poço...

—Poço? Aquele buraco colossal? Você sabe qual o tamanho daquela merda?

Elric inspirou várias vezes, voltando a falar.

—Meus ancestrais... chamavam...de... Entrada... para... o Inferno ...

—Ah, sem dúvida é uma entrada pro inferno, amigo. Eu diria até que é uma passagem só de ida! Era só o que me faltava... perdi metade das minhas mercadorias. Merda! —ele exclamou, irritado— E agora? Como vamos fazer para cruzar em segurança? Tenho de entregar esses produtos em cinco dias ou perco o cliente!

Os soldados e mercenários que sobreviveram permaneceram encarando o abismo como se transfixados. A morte de seus companheiros tinha sido estúpida. Sem motivo nenhum, sem um propósito maior. Eles estavam assustados. Os comerciantes pareciam inabalados pela experiência, continuando a amaldiçoar o deserto e suas armadilhas.

Elric pegou o mapa dado a ele pelo Tzar e o rasgou em pedaços.

“Seu filho da puta... você armou para mim! Eu deveria voltar agora mesmo para Tellericar e enfiar Stormbringer até o talo no seu coração.”

A espada vibrou na bainha, ronronando. Ela lia seus pensamentos vingativos e se deleitaria em realizá-los. Fazia meses que Stormbringer não vitimava ninguém. A reação dela foi suficiente para acalmá-lo. Se ele a sacasse agora num ímpeto de raiva, acabaria assassinando aqueles pobres soldados e mercenários que nada tinham a ver com a traição do rei.

Por sorte, Elric havia guardado o mapa do comerciante morto. Este continha muito mais trilhas marcadas, com atalhos desenhados e explicados nas margens. O homem estava acostumado a atravessar as Dunas da Perdição. Talvez sua expedição tivesse uma chance de dar certo.

—Escutem! —ele brandiu para os homens restantes, erguendo o mapa em seu punho — há uma via segura para o nosso destino. Se vierem comigo, pagarei em triplo a recompensa! O que dizem?

Os soldados e mercenários se entreolharam, hesitantes. Alguns dos homens do Tzar se recusaram a continuar a viagem, preferindo voltar a Tellericar. Já os mercenários preferiram continuar a segui-lo. Quanto ao comboio, os comerciantes acharam melhor ficar com os soldados. Após negociar a compra de alguns suprimentos, Elric liderou os quinze mercenários e os cinco soldados em direção à nova rota, levando um total de dez dias para alcançar o fim de sua jornada.

Como previsto, ele havia encontrado as montanhas usadas pelos rebeldes para executar seus ataques aos comboios de Tellericar. Com o cair do dia, ele não tinha dúvida de que eles sairiam das cavernas, usadas como seu esconderijo, e os pegariam de surpresa durante o sono.



Mas Elric tinha um plano... e conhecendo a mentalidade perversa dos feiticeiros de Melniboné como ele conhecia, não havia chance de sua ideia dar errado.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Capítulo 2: O Tzar e o Príncipe





O melniboneano marchou pelo corredor do palácio real, escoltado por não menos que seis membros da guarda. Ele caminhava apreensivo, já antevendo o que o Tzar provavelmente pediria dele.

Em uma de suas aventuras envolvendo reis e governantes humanos, Elric fora coagido pelo Duque Avan a empreender uma arriscada viagem pelo Mar Fervilhante atrás de um antigo segredo das lendas de Melniboné: R'lin K'ren A'a, a terra de seus ancestrais. O albino fez de tudo para demonstrar seu desinteresse na viagem, mas o aristocrata simplesmente não lhe deu nenhuma escolha. Seu navio navegava direto para a costa ocidental e o príncipe não pode fazer nada a não ser se resignar com a situação em que o destino havia forçosamente lhe colocado.

—Majestade, encontramos o melniboneano. —anunciou um dos guardas.

O soberano estava de costas para os portões de seu escritório, reclinado em cima da mesa. Ele parecia ocupado com um documento. A julgar pelas suas dimensões, Elric adivinhou que se tratava de um mapa.

—Podem se retirar. —fez o homem, gesticulando para que os guardas saíssem.

Os portões se fecharam detrás de si e Elric não disse, nem fez nada enquanto o Tzar não se dirigia a ele. Após alguns estranhos segundos em que o albino ficou em pé encarando o majestoso recinto ao redor e o Tzar continuava de costas para ele, analisando o mapa com grande interesse, o homem finalmente se dirigiu ao seu convidado.

—É raro recebermos visitantes da Ilha do Dragão. —sua voz ecoou pelo salão amplo— Os melniboneanos são famosos por serem reclusos. Raramente abandonam sua terra natal.

O Tzar era um homem de estatura mediana, longos cabelos negros presos em uma trança, adornada com fios de prata em seu comprimento. Seus trajes eram compridos e amarrados com um cinto ricamente enfeitado com belas pedrarias. De sua cintura, pendia uma bainha branca contendo uma espada de empunhadura fina, longa e prateada. Seus olhos profundos eram de um tom verde escuro e rasgados. O homem tinha uma boca reta, e seus lábios se contorciam em um eterno sorriso no canto. O olhar de Elric cintilou em resposta. Aquele homem obviamente sabia de sua identidade e reputação. Mas fingia ser ignorante a respeito de ambos.

—Meu povo zela muito por suas tradições. Não cabe a mim questionar a sabedoria de meus ancestrais.

—Mas você já questionou! Não é por isso que deixou sua terra natal, Sua Alteza? —o homem retrucou com um largo sorriso.

Elric não sabia se o Tzar estava interessado nele ou apenas se divertindo às suas custas. De qualquer forma, ele tinha se tornado impaciente com os governantes humanos. A maioria deles procurava o albino apenas para lhe arrancar segredos sobre a poderosa feitiçaria de seu povo. Nenhum tinha o interesse genuíno de lhe ajudar a restaurar seu Império à sua antiga glória.

—Você me convocou, Tzar. Diga-me por que razão estou aqui.

—Isso é o que pergunto a você, meu caro. —ele respondeu com delicadeza— Apenas algumas semanas atrás, meus guardas vêm até mim com uma notícia estranha: a de que uma família viu um cadáver ambulante vindo do deserto e bateu às nossas portas, implorando por água. Não só isso, como ele trajava roupas típicas de um melniboneano e portava uma espada de fio negro, suja de sangue. Como acha que reagi à notícia?

O Tzar lhe encarava de volta, arqueando uma sobrancelha e fingindo que inspecionava suas longas unhas. Elric soltou um longo suspiro.

—O que você contou ao povo?

—Ah, eu não disse nada demais. Nada que incitasse a ira das pessoas.

O Tzar se referia à intensa hostilidade humana contra os melniboneanos.

—Mas eles ficaram curiosos quanto à sua vinda. Então, eu tive de dar uma desculpa conveniente.

Elric cruzou os braços, vendo que o Tzar sorria em vez de responder logo de uma vez. Ele gostava cada vez menos do homem.

—E que desculpa seria essa? —ele perguntou cheio de cinismo.

Agora eles haviam entrado no assunto que interessava.

—Simples. Eu disse que você era o herói que ajudou o Duque Avan em sua perigosa expedição pelo Mar Fervilhante. Também foi o bravo guerreiro que liderou anos antes a rebelião contra o tirano Yyrkoon quando da invasão de um dos Reinos Jovens. —o Tzar gesticulava fazendo floreios com a mão enquanto falava—Contei de sua heroica entrada em uma das principais cidades, onde a população era refém de seu cruel primo, e de como o bravo e corajoso Elric resgatou sua noiva e derrotou o tirano sádico. Então, obviamente eu disse que você tinha vindo a Tellericar cumprir uma importante missão. Uma missão que resolveria o meu problema e o seu. –ele disse, catando uma maçã de uma cesta.

—E que problema seria esse?

—Tirar seu primo tirano do trono sem ser assassinado antes. —ele respondeu dando uma mordida na fruta.

Elric encarou o homem de soslaio e começou a caminhar pelo salão, inquieto. O Tzar estava bem informado do dilema que ele enfrentava com Yyrkoon. O albino havia colocado seu primo como regente até seu retorno a Melniboné. Agora, o safado havia se acostumado ao trono e iniciaria uma guerra contra Elric, se necessário, para se manter governando.

O que o Tzar oferecia era um favor em troca de outro: a ajuda militar de Tellericar pelo que quer que ele estava prestes a pedir. Tendo mal sobrevivido à sua última incursão em uma cidade dominada por demônios, onde perdeu todos os seus companheiros, ele se via pouco inclinado a enfrentar qualquer batalha daqui para frente sem ajuda apropriada.

—É mesmo estranho que um poderoso feiticeiro tenha chegado a Tellericar quando eu mais precisava. —o Tzar continuou falando—Se eu não fosse um cético, diria que os deuses favoreceram esse encontro. Acho que sua vinda não poderia ser mais proveitosa. Diria até que nosso encontro foi forjado pelo destino.

Os pelos de Elric se arrepiaram em seu braço e um tremor percorreu seu corpo de cima a baixo. Sempre que ele ouvia aquela palavra – destino -, ele tinha um péssimo pressentimento. O albino já a ouvira mais vezes do que gostaria, e em todas elas, as coisas não haviam terminado bem.

A espada sentiu sua vontade de se livrar do homem naquele mesmo instante e ronronou na bainha.

—E essa é a lendária Stormbringer. —fez o Tzar— posso vê-la?

Elric manteve os braços cruzados detrás de si, devolvendo-lhe um olhar glacial.

—Nunca deixo outro homem tocá-la.

—Hm. Vc tem ciúmes da sua espada? —ele sugeriu com um olhar maroto.

—Digamos que sim. —o albino respondeu, mal disfarçando o tom de ameaça.

O Tzar depositou o restante da maçã em um cesto vazio, limpou as mãos e apanhou o mapa que estava em sua mesa.

—A razão pela qual lhe chamei aqui é muito séria. —seu tom se tornou taciturno— Há quinze anos, Tellericar vem sofrendo saques e invasões de um grupo de rebeldes instalados no deserto. Apesar de enviar nossas melhores tropas para escoltar a região, nunca conseguimos encontrar a base desse grupo. Meus homens já tentaram de tudo, mas é impossível descobrir onde os canalhas se escondem. Eles são como baratas. Matamos alguns deles e mais voltam não se sabe de que inferno para vir nos atormentar.

O Tzar havia lhe entregado o mapa para Elric inspecionar. Na parte do deserto, havia vários círculos e rotas tracejadas, indicando os locais investigados e as patrulhas feitas. O albino moveu seus olhos vermelhos pelo pergaminho, se dando conta de que Tellericar era circundada pelo deserto de todas as direções, exceto pelo sul. Ali, uma cordilheira se estendia e bloqueava o acesso ao mar. Se não fosse pelas montanhas, o deserto não existiria.

—Quem comanda esses rebeldes? Um rival insatisfeito?

O Tzar lançou por um breve momento um olhar desconfiado ao albino, como se ele soubesse de alguma coisa, mas julgou que isso era impossível.

—Quem vai saber? Você conhece os bandidos que se escondem no deserto. Todo mês é a mesma coisa: enviamos minerais e joias para as principais capitais do reino e esses bastardos atacam nossos comboios.

—Ainda não vejo onde me encaixo nisso tudo.

O Tzar pousou as mãos em cima da mesa, de costas para o príncipe.

—O líder desses rebeldes não é uma pessoa comum.

“Ah.” —fez Elric em pensamento. Agora ele entendia onde o homem queria chegar.

O Tzar lhe contou do que aconteceu na única vez em que aquele bando tinha conseguido invadir o palácio. Era madrugada e alguém tinha contaminado a água da fonte nas montanhas —onde Tellericar abastecia metade de seus reservatórios— colocando um potente sonífero no lago principal. A substância não tinha cheiro, nem cor, e por isso os tellericanos só se deram conta de que foram contaminados no fim do expediente. A cidade literalmente parou por várias horas. Ninguém se aguentava acordado. Foi quando os rebeldes invadiram o palácio e fizeram um atentado à vida do Tzar.

—Eu me escondi quando soube que havia algo de errado na cidade. Mas a líder deles me encontrou e, com um grupo de cinco bandidos, tentou acabar com a minha vida. Eles só não conseguiram porque minha guarda me defendeu a tempo.

—E o que essa líder fez, afinal? —Elric perguntou, já impaciente.

—Ela matou meus soldados, um a um. Sem sequer usar nenhuma arma. Apenas...argh, não sei. Ela lançou raios de suas mãos e seus olhos brilhavam com uma luz infernal. Eu nem sei o que ela fez comigo. Por sorte, o resto da guarda chegou e conseguiram expulsá-la. Eu vi eles perfurarem seu corpo com espadas e ela continuava viva. Vi ela correr sozinha de volta para o deserto, sendo alvejada por flechas em brasas, e a miserável não morria. Só continuou correndo de volta para o buraco onde ela se esconde.

“Por isso ele estava interessado em Stormbringer.” —os olhos vermelhos cintilaram— “Ele quer que eu use a espada devoradora de almas e acabe com ela. A espada que pode sugar até a alma de um deus.”

Em tudo que o Tzar lhe relatara, havia um detalhe que não batia...

“Uma feiticeira imortal? Em um dos Reinos Jovens?” –o albino pensou, desconfiado. Isso não fazia o menor sentido. Ela não poderia ser humana. Humanos não conheciam feitiçaria. Essa era a especialidade de Melniboné, aprendida com os seres de outros planos.

“A não ser que ela seja a precursora de Gagak.” –ele pensou, inquieto. Gagak tinha sido uma feiticeira que, em um tempo futuro, ele derrotou com a ajuda de mais três bravos heróis, chamados apenas de encarnações do Eterno Campeão. Ao chegar nas margens de uma Tanelorn desolada, sabe-se lá por que catástrofes a história ainda lhe traria, Elric e seus recém conhecidos companheiros fundiram suas consciências e dominaram o corpo de Gagak, usando-o para destruir seu irmão, um perigoso feiticeiro, e evitar que ambos sugassem toda a energia do Universo, precipitando seu fim.

“Não pode ser ela...ou será? Aqui, no presente, que é o passado dela, teria eu encontrado sua forma original? Eu poderia destruí-la antes que ela aumentasse seus poderes e ameaçasse o futuro.”–o albino considerou.

—Qual o nome dela? De onde ela veio?

O Tzar respondeu que não fazia ideia.

—Seus homens não interrogaram nenhum desses rebeldes? –ele insistiu.

—E como iriam interrogar? —ele exclamou, e seu tom de voz ecoou pelos corredores adjacentes— Esses desgraçados são suicidas. Aceitam morrer por ela! Eu não sei o que ela fez com eles. Colocou um feitiço de obediência em suas mentes, fez lavagem cerebral, não sei! Estou pedindo sua ajuda, Elric! Se você não me ajudar, eu não sei o que vou fazer! Não tenho meios para combater um inimigo desses. Ninguém em Tellericar tem. —ele concluiu, mais calmo.

Elric encarou o mapa de novo e contou três cidades importantes vizinhas a Tellericar. Duas delas haviam pertencido ao antigo Império de Melniboné e com certeza não teriam interesse nas joias de outro lugar. Não quando se podia importar as magníficas pedrarias esculpidas em jade, rubi e diamante contendo as insígnias usadas pelos grandes imperadores do passado e que valiam mais do que todo o tesouro de cinco das principais nações dos Reinos Jovens. O que significava que a rota que os bandidos predavam só poderia ser uma...

—Eu não pretendo voltar para a cidade de onde vim. Nunca mais quero ver o deserto na minha vida. E não quero correr o risco de ser reconhecido por nenhum viajante de lá.

O Tzar não soube como reagir.

—Escute: não estou pedindo que se arrisque sozinho. Você será acompanhado pelos meus melhores homens. Além do mais, você...

—Não é isso. —Elric o interrompeu—Me sinto pouco inclinado a me envolver nos seus problemas. Até onde vejo, ela é uma feiticeira provavelmente vinda de Melniboné. Se ela está incomodando vocês em vez de voltar para casa, então ela quer algo de volta. Do contrário, não há razão para ela perturbá-lo.

Elric fez menção de lhe devolver o mapa e sair do salão. O Tzar tinha uma expressão indignada. Suas faces enrubesceram, seu olho tinha um tique nervoso e seus lábios se contorciam, balbuciando a seguinte pergunta:

—O que quer dizer? O que está insinuando?

—Envie um mensageiro. Pergunte o que ela quer. E então, entregue a ela o que ela pedir.

O albino já atravessava os vastos portões quando o Tzar brandiu as próximas palavras, evidenciando seu desespero.

—ELA PODE SER UMA ENVIADA DE SEU PRIMO YYRKOON. PARA QUESTIONAR MINHA AUTORIDADE. VOCÊ É O IMPERADOR OU NÃO É? OU DEVO SUPOR QUE MELNIBONÉ NÃO SE IMPORTA COM OS REINOS JOVENS?

Elric parou de caminhar no mesmo instante. Ele havia ignorado aquela possibilidade. Por mais que não gostasse do Tzar, por mais que algo o incomodasse naquele homem, o humano tinha razão. Se Elric não investigasse esse bando rebelde, cedo ou tarde isso poderia resultar em guerra entre Melniboné e os Reinos Jovens. E conhecendo Yyrkoon, enviar feiticeiros pelos quatro cantos do mundo para enfraquecer as lideranças políticas dos humanos parecia ser o tipo de coisa que seu primo faria.

O albino suspirou, deu meia volta e encontrou o Tzar caminhando em sua direção com a palma estendida.

—Então temos um acordo?

Relutante, Elric aceitou a missão, tomando a palma do homem na sua.

O Tzar e o príncipe se cumprimentaram em um aperto de mão amistoso, embora o olhar de Elric ainda refletisse incerteza. Ele pediu licença e se retirou do salão, caminhando altivo, como um verdadeiro imperador. O Tzar foi até a janela, observando o albino caminhando na rua, com sua longa cabeleira branca acariciada pela brisa e os melancólicos olhos vermelhos encarando os arredores.

Uma segunda figura se aproximou do Tzar e ficou observando o melniboneano ao seu lado.

—Você estava certo. —disse o Tzar, sem tirar os olhos do albino—Ele não é como os outros de sua espécie. Ele parece ser só um fracote com uma espada maior do que ele. Nunca pensei que fosse alguém tão difícil de lidar.

—Você não é o único a nutrir essa opinião a respeito de Elric de Melniboné —respondeu a voz sibilante e oleosa— Eu avisei a Sadric que seu filho era o prenúncio divino de uma maldição sobre nosso povo. Era melhor sacrificar a criança aos deuses e evitar problemas futuros. Mas como com tudo que eu dizia, ele fez pouco caso de meus conselhos.

—E quanto a Yyrkoon? Ele está enviando reforços?

O homem abriu um sorriso sinistro, mas o Tzar nada viu, mantendo o olhar na janela.

—Ah, sim. Eles estão vindo.

—Bem, eles estão demorando para chegar. Veja se ele se apressa. Temos de acabar com a resistência antes que esses insurgentes recrutem mais gente para seu serviço. Da última vez, eu escapei da morte por sorte.

O homem soltou um ruído ressentido.

— Sorte não teve nada a ver com você sair ileso. Você faz pouco caso da feitiçaria ancestral. Deveria ter mais respeito pela herança que os Lordes do Caos ensinaram ao meu povo.

O Tzar viu que chateou o melniboneano e murmurou um pedido de desculpas. O homem vivia repetindo isso pelos últimos quinze anos. Ele não aguentava mais aquela ladainha. Na mente dele, esses tais Lordes do Caos não passavam de imaginação daqueles feiticeiros, que viviam se drogando, deitados nos sofás dos palácios de imperadores já mortos de um império decadente.



—Venha. Temos muito que conversar. —disse o Tzar, conduzindo o melniboneano aos seus aposentos privados.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Capítulo 1 - O Mercenário com a Espada Negra




Fazia três meses que Elric vagava pelos Reinos Jovens em busca de alguma aventura. Sua última viagem o havia levado ao mundo além do Portal Rubro, conhecido pelos humanos como o Inferno, onde ele enfrentou uma das maiores lendas de seu povo: o conde Saxif D'Aan, um poderoso governante, mestre na arte da feitiçaria e que torturara até a morte a única mulher que o amou. 


Aquela tinha sido a primeira grande experiência do príncipe de Melniboné longe de sua terra natal. Claro, ele já se aventurara por outros países e planos de existência muito antes, como quando teve de resgatar sua noiva, Cymoril, de seu cativeiro. Seu primo Yyrkoon havia raptado a própria irmã numa tentativa de tomar o trono que pertencia a Elric por direito após abandoná-lo à própria morte durante uma batalha contra uma frota invasora de um dos Reinos Jovens.


Não que ele culpasse o primo pelos seus atos. Na verdade, ele era até agradecido pelos acontecimentos terem se desenvolvido do jeito que ocorreram. Pois fora graças à traição de Yyrkoon que Elric mais tarde veio a se apossar da lendária Stormbringer, a espada devoradora de almas, a espada amaldiçoada de seus ancestrais. Foi necessário que Elric viajasse ao mais sombrio dos planos, onde as forças do Caos e da Ordem travaram uma de suas milenares batalhas, até chegar à sinistra cidade de Ameeran, uma cidade desolada em um plano desolado, habitado somente por demônios, almas perdidas e presos condenados a uma eternidade de sofrimento. O príncipe aceitou passar pelo Portal das Trevas para encontrar seu primo e acabou encontrando uma das duas espadas lendárias. Yyrkoon havia tomado para si uma delas, Mournblade, e os dois travaram um embate para decidir quem retornaria vivo e seria coroado imperador de Melniboné. 


Elric, é claro, desconfiava que tudo não passasse de manipulação dos deuses. Não raro os governantes melniboneanos eram induzidos por Arioch e sua legião de demônios a empreender arriscadas missões para ampliar seu poderio. Arioch era o patrono de Melniboné e o mais poderoso Lorde dos Caos. Sua invocação era considerada uma das mais difíceis pelo povo da Ilha do Dragão, pois muitas vezes Arioch não respondia aos seus adoradores. O lorde tinha seus favoritos, e só a eles eram concedidas as maiores benesses. 


E um deles era Elric de Melniboné.


Desde o começo, o príncipe desconfiara que Arioch manipulou toda a briga com seu primo para que o príncipe tomasse a espada.. O que Elric não poderia prever era como a espada responderia a todos os seus anseios mais profundos. Stormbringer não era uma espada comum. Primeiro, porque ela possuía vontade própria. Segundo, porque a cada morte que trazia, ela absorvia a vida de sua vítima e a passava a quem a empunhasse. E terceiro, porque ela era considerada invencível.


Elric, contudo, não era bobo. Ele sentia a vontade da espada. Ele sentia sua sede de sangue. Aquela arma era ardilosa e manipuladora. Se ele não a controlasse, seria por ela controlado. O príncipe enxergou todas essas coisas e, durante o embate, se recusou por diversas vezes a executar seu primo. Em cada chance que Elric teve de ferir mortalmente seu rival, a espada se agitou em sua mão em protesto, clamando por sua vida. Mas Elric se recusou a realizar seu desejo. Ele era o mestre da espada, e não o contrário. 


Mas todos esses eventos aconteceram anos atrás e agora Elric tinha outras preocupações imediatas. Com Stormbringer ao seu lado, o príncipe nunca mais precisaria se preocupar com sua saúde fraca. Toda vez que matasse, a espada restauraria sua força. Ela era o passaporte para sua liberdade, para uma vida longe das obrigações de ser um imperador de Melniboné. Por isso, Elric viajava, atravessando mundos e planos e buscando conhecer os Reinos Jovens, no intuito de acumular conhecimento sobre o novo mundo. 


Os moradores que passavam por ele lhe encaravam por alguns segundos a mais do que o normal, assustados com sua aparência fora do comum. Elric era o que podia se chamar de demônio humano. Seus olhos vermelhos contrastavam com sua pele albina e seus cabelos brancos. E suas roupas de couro negro denunciavam sua verdadeira origem. Ele não os culpava por seu medo. Por cinco séculos, os humanos foram submetidos às piores tiranias da mão dos imperadores da Ilha do Dragão. 


Terríveis torturas eram infligidas naqueles que eram capturados e levados a Melniboné. Por toda parte, se falava dos cruéis imperadores, que esfolavam suas vítimas com as próprias mãos em um espetáculo diabólico para a diversão da corte e bebiam seu sangue em seus crânios. Um dos passatempos da aristocracia era manter várias vítimas torturadas vivas por semanas a fio e tocar suas cordas vocais como se fossem instrumentos musicais, produzindo uma sinfonia macabra para quem quer que a ouvisse, exceto para os ouvidos de um melniboneano.


Em todas essas lendas, havia algo de mito e de verdade. Elric sabia que Yyrkoon tinha, sim, seu chamado Quarto dos Prazeres. Mas os prazeres nada envolviam atividades agradáveis para quem entrasse ali de fato. Era comum a vítima ser dopada e carregada para o recinto e seus membros serem retirados dali em separado. Um dia era um braço. No outro, as duas pernas. Às vezes retiravam apenas a língua e os olhos. Os membros decepados variavam conforme o gosto do melniboneano. Até não sobrar mais nada a não ser a cabeça ou qualquer outra parte com que Yyrkoon se satisfizesse em seus jogos sádicos.


Elric terminou de beber seu vinho e pagou ao taberneiro com algumas poucas moedas locais. Ele matinha uma bolsa recheada com as preciosas moedas melniboneanas, cunhadas a ouro e contendo o brasão de sua terra natal; mas ninguém naquela região aceitaria trocá-las. O albino mal deixou a taverna quando viu o que parecia ser uma parada militar cruzar a rua.


Os soldados atravessavam a via principal carregando os estandartes do triunvirato, os três reis que governavam a região de Tellericar, próxima às Cidades Púrpuras. A população dava passagem, assistindo a tudo com ávido interesse. À frente vinha uma pequena orquestra, tocando tambores e rufando trompas. E liderando os soldados vinha a guarda real, trajada em um ostensivo uniforme de um rico tom vermelho e ombreiras douradas. 


O melniboneano se manteve discretamente escondido em seu canto, quase inconfundível entre os cidadãos em uma das margens da calçada. Mas não havia jeito; seu visual destoava da massa, com seu cabelo branco revolvendo ao redor de sua cabeça e seus olhos caídos cintilando em um profundo vermelho sangue contra a luz do sol.


A guarda real ordenou que os soldados parassem de marchar e se virou para a calçada onde Elric estava. Um deles apontou em sua direção e murmurou para o outro que aquele era o mercenário com a espada negra. 


“Merda. Eles me descobriram.” –pensou o albino, já levando a mão para a empunhadura. Stormbringer pressentiu o combate e ronronou na bainha. Ela se banharia no sangue de novas vítimas.


A última vez que Elric tentou oferecer seus serviços a um governante humano, a situação não teve um resultado feliz. O albino foi encarcerado sob acusações de ser um espião de Melniboné e teria sido torturado se não fossem por seus conhecimentos de feitiçaria. Com a ajuda dos elementais, ele incinerou seus capturadores e fugiu da primeira cidade humana que tentou visitar, jurando que aquela seria a última vez que ele poria seus pés nos Reinos Jovens.


Mas o destino lhe havia obrigado a fazer uma parada em Tellericar. Viajando por uma semana pelo deserto, sem água, nem comida e apenas com a energia da espada para lhe sustentar, Elric chegara à cidade parecendo um cadáver ambulante, de tão magro e famigerado que estava. Somando-se à sua pele anormalmente branca, ele só podia imaginar o efeito aterrorizador que causou nos guardas humanos ao finalmente chegar à Tellericar, arrastando-se em direção aos seus portões enquanto implorava por água.


Os guardas abriram passagem pelas massas e chamaram pelo seu nome.


—Elric de Melniboné, Sua Majestade, Tzar Altenkoenig III, O Altíssimo o convoca à sua presença.


—Como sabem que sou de Melniboné? –ele perguntou, estranhando como, em uma metrópole com mais de quinhentos mil habitantes e duzentos mil estrangeiros, visitantes de todas as partes do mundo, o rei sequer sabia de sua existência.


O guarda conteve um sorriso sardônico, evitando encarar o albino de cima a baixo, com seus trajes tipicamente pertencentes a um habitante da Ilha do Dragão.


—Sua Majestade pode respondê-lo em pessoa. Acompanhe-nos. –aquela era uma ordem, e não um pedido.